26 de Junho de 2009

Carlos Pronzato sorri.

CAZZO ENTREVISTA CARLOS PRONZATO



Há muitos anos eu desisti de salvar o mundo. Li, reli literatura subversiva mas não fui à luta porque sou mesmo de uma geração que nasceu desiludida. Carlos Pronzato não teve a mesma “sorte”.

Diretor teatral, escritor, cineasta independente, e, agora, blogger [www.lamestizaaudiovisual.blogspot.com], Carlos Pronzato acredita num mundo melhor. E faz, e trabalha, e luta, a seu modo, para que este tal mundo aconteça com uma câmera na mão porque são seus ideais que guiam a câmera: Papeleras GO HOME! - contra as fábricas de celulose-“; “O Panelaço, a rebelião argentina”; “Bolívia, a guerra do gás”; “Bolívia, a guerra da água”; “Jallalla Bolívia, Evo Presidente!”; “A Rebelião dos Pinguins – estudantes secundaristas contra o sistema no Chile”; “Carabina M2, uma arma americana, Che na Bolívia”; “A Veracel no Abril Vermelho do MST”; “Maio Baiano”; “A Revolta do Buzú”; “Além do Jejum, as verdades do Velho Chico”; “Até Oxalá vai à guerra”; “Buscando a Salvador Allende”; “Fernando Lugo, de bispo a presidente do Paraguai“.

Assim como Verger, Carybé e Arto Lindsay, Carlos Pronzato é desses estrangeiros que não estranham, pelo contrário, se sentem em casa quando dentro da Bahia. Mas cumpre também um relevante papel navegando pelas veias da América Latina, sempre atento a tudo o que pulsa no combativo continente. Sujeito persistente, Pronzato retrata, em absoluto, a vida real, concreta, sem maquiagens, sem vestígio algum de tentativas espúrias de manipular o que deve e o que não deve ser visto.

É óbvio que toda e qualquer manifestação artística é o reflexo de quem a pratica. Mas Pronzato, documentarizando, não nos impõe a realidade, decerto, contrapõe a vida ideal que as novelas nos fascinam – os problemas resolvidos, a inexistência de conflitos sociais latentes, a consagração do amor puro – porque de sua lente capta episódios sem recortá-los, transformando seus documentários em crônicas audiovisuais, numa estonteante produção, um jornalismo ambulante e emergente na busca de contar o fato, fazê-lo imortal.

A aparente raiva tão comum no semblante desses seres inconformados não se desenha num traço sequer no rosto leve do cineasta. Pasmem, Carlos Pronzato sorri.


Vejo nos seus filmes, na sua linguagem, quase um total descompromisso com a estética e um desgastante foco na realidade nua e crua. Estética e conteúdo, para você, são incompatíveis? (Maurício Moraes, 26 anos, Ator)





Pronzato - Não há conteúdo sem estética, por mais preeminência dada ao conteúdo. As vezes a relevância das informações que constituem o núcleo do trabalho podem desbordar qualquer forma premeditada e se constituir na própria estética do material proposto. Estamos falando da “espécie” documentário militante gerido a partir de momentos (que poderão vir a ser históricos) que no calor da hora, geralmente nas ruas, nas ocupações, nos enfrentamentos com as forças repressivas e até com as próprias direções – que em muitas ocasiões não conseguem acompanhar as dinâmicas criativas intra mobilizações - e dos testemunhos, constroem, com suas próprias formas, seus próprios conteúdos. Cabe a nós, “historiadores cinematográficos”, refletir no próprio momento da captação, quando a montagem do filme começa a surgir, sobre a seleção e organização do material coletado e o espaço de intervenção estética possível de ser incluído, sem mexer na qualidade e potencia política da voz que o entrevistado pretende veicular. Por tanto, o que há é o compromisso de não omitir esta relação vital entre conteúdo e forma, constituída de algo inexplicável que eu chamaria de transpiração, de um suor próprio de filmes paridos em total cumplicidade contestatória entre o veículo, o documentarista e o fato, geridos com mínimos recursos, em aberta exposição, sem resguardos nem respaldos, porque não pertencentes a nenhum tipo de coordenação política e/ou institucional, e portanto partícipes dos mesmos riscos daqueles que se expõem da mesma maneira nas ruas aguardando apenas reivindicações imediatas, que não se alastrem em conluios de gabinetes nem negociações posteriores com instancias, sempre diluentes, com o Estado. Assim, colocar o foco na realidade nua e crua, colocar o olho no âmbito que não admite tergiversações, o espaço autêntico da reclamação – e quanto mais espontânea mais autêntica – pode incomodar muitos “profissionais da revolução”, mas com certeza, não abre mão do compromisso com a História que atravessará finalmente a deformação das versões dos ditos vencedores.


Considero o senhor um grande cronista do nosso tempo. Mas, ainda assim, existe algum projeto seu de fazer um filme atemporal, ou mesmo ficção? (Rita Maria Souza, 33 anos, Estudante de Direito)


Pronzato - Sim, até agora fiz apenas 3 filmes, curtas de ficção baseados em relatos da nossa História, “Canudos, numa longa curva” – filmado na própria Canudos ou Nova Canudos -, “Pierre Verger, chegar à Bahia” – filmado no Hotel Chile, onde ele ficou nos seus primeiros anos na Bahia e pode ser visto em youtube -, e “Caravela Tupiniquim” – filmado em Coroa Vermelha, sul do estado, sobre os 500 anos do Brasil e ainda não concluído. Como vê, todas estas ficções tem um pé na realidade. Estes trabalhos tiveram patrocínios parciais como a Uneb, a Dimas, e outras instituições. Mas por diversos motivos tiveram que ser finalizados através do mesmo tipo de esforço de produção militante aplicado aos documentários políticos de temas pontuais. Aqui seria bom fazer um aparte porque os públicos são diversos e nem todos acompanham a totalidade das obras realizadas – já que a Secretaria de Educação, em nenhuma gestão – mas nesta última acho isto um absurdo –, e como sempre solicitado por professores, não tem a coragem de distribuir parte da minha obra nas Escolas. Mas é bom dizer que filmes longas como “Carabina M2, uma arma americana. Che na Bolívia”, “Buscando a Allende”, e outros sobre temas históricos tiveram outras construções estéticas, apesar de ter as mesmas formas produtivas. Como já me falaram, para se adentrar neste tipo de solicitações de apoios mínimos para a construção destes filmes, tem de se fazer votos de pobreza primeiro, para não achar que as esmolas são esmolas, senão aportes para uma missão, quase franciscana, por certo, ou quixotesca (para isto deixei crescer um bigode que faria a inveja do cavaleiro da Mancha).
Mas, sim, existem projetos que tentarão aliar esta proposta política de temas brasileiros e latino-americanos que venho desenvolvendo há uns tempos com uma outra proposta munida de um envoltório ficcional, o que inclusive promoveria uma penetração mais profunda em âmbitos populares - e nem tão populares - de recepção, hipnotizados diariamente com a deformação deste formato que é a novela e infinidade de filmes comerciais de ocupação mental. Nós também temos direito a hipnotizar!..para esclarecer. rsrsrs.

Só que tem um, porém, isto precisa de recursos bem maiores, principalmente porque tem que “alimentar produtores/captadores de recursos“ que vivendo nesta parte do mundo, esquecida, espoliada, arrasada, pretendem ser produtores hollywoodianos de filmes do terceiro mundo. Não é minha intenção ficar preso nessas teias de um show business amador terceiro-mundista. Se é para se ganhar dinheiro mesmo com cinema vou para os states ou pro Rio que é mais perto. Assim, fica difícil achar “sócios” que topem propostas cinematográficas terceiro-mundistas. Mas a desistência não é palavra que conste no catálogo do documentarista político, e por isso estou a procura de novas formas de produção,- depois de ter praticamente inventado esta sorte de “mascatismo político/cultural” com a qual convivo fazendo “as crônicas do nosso tempo”, como alguém falou aqui - e hoje com a explosão tecnológica no mundo audiovisual acho que poderá ser possível ter a chance de poder elaborar com mais cuidado filmes, sem a intervenção ou o patrocínio quase exclusivo do Estado ou empresas capitalistas/imperialistas como a Nestlé, Petrobrás e similares. Até hoje, com os pequenos recursos públicos, retirados com muita paciência dos bolsos públicos de parlamentares, e de alguns Sindicatos e Organizações ainda não totalmente devoradas pelas parcerias PP e/ou pelo próprio sistema, mas principalmente gerados pela renda através da distribuição, comercialização dos DVDs com diversos segmentos do público em diversos países, que com este tipo de documentários debate a realidade e muitas vezes se mobiliza, não dá ainda para empreender esta aventura, mas se puder, em breve, será iniciada.


Pronzato, quais são as suas referências cinematográficas? E o que você acha realmente ruim em termos de estética cinematográfica? (Rui Figueira, 23 anos, Músico)

Pronzato - Certa vez, no inicio dos anos 80, quando ainda morava em Buenos Aires, e fiquei uns tempos residindo no apartamento de Hugo Fregonese, diretor de cinema argentino que morou nos EUA dirigindo estrelas de Hollywood como Gary Cooper, Edouard Robinson e Bárbara Stanwick, entre muitos outros monstros sagrados, referencia de qualquer enciclopédia cinematográfica mundial, quando solicitado a me emprestar alguns livros para o estudo informal de cinema, me indicou um setor exclusivo da sua biblioteca: a dos pintores. Rembrandt, Caravaggio, Giotto, e etc, etc. Luz, enquadramentos, organização do espaço, textura de cor, etc. E lhe dou outra pista, minha formação teatral previa a academia me levava a ler peças nos meus 15, 16 anos antes de assisti-las, o que me provocava imaginar montagens “mentais” próprias antes de ver elas representadas no palco, o que de alguma forma também eram montagens “mentais” de cinema. Portanto o que estou querendo sinteticamente colocar é que as referencias provem de diversos campos, de diversos suportes artísticos, como inclusive a poesia, que pratico certa assiduidade, a mais cinematográfica das artes porque constituída essencialmente de imagens a partir da escolha e organização das palavras. Pelo menos é o que a gente tenta quando escreve.
Agora, especificamente, quando ainda não tinha abordado o cinema como uma ferramenta política mais do que como um caminho apenas estético, minhas “leituras” tal vez sejam as clássicas de quase todos da minha geração: o neo-realismo italiano, a nouvelle vague, Buñuel, Fellini, Wajda, Tarkovski, Herzog, Fassbinder, também Pasolini, os irmãos Taviani e já na minha seara do cinema de denúncia, os latino-americanos (Birri, Sanjinés, Gleyzer, Glauber). Minha formação é completamente anárquica, o que me permitiu beber em muitas fontes com um sentido amplo do mundo, para depois decantar o necessário criando minha própria ordem de “anartista”.
Agora, ruim para mim é a estética que migra da TV para o cinema, ritmos, enquadres, planos e tempos incompatíveis, narrativas infinitas e óbvias próprias da novela com a que estamos acostumados a ver principalmente no cinema comercial brasileiro - e muitas vezes no chamado “de autor”-, o mais norte-americano do mundo. Um cinema milionário, e estou me referindo ao brasileiro em relação com outros do seu próprio contexto latino americano, que não aporta absolutamente nada em termos de conteúdo e forma, mais ainda pela responsabilidade que um pais/continente como este deveria ter na sua capacidade de influencia (em termos de escola e ideologia e não apenas comercial) dos vizinhos e de enfrentamento ao monopólio dos mercados do cinema dos EUA, com seu 85% do mercado mundial. Mas a possibilidade de uma estética latino-americana ainda tem esperança de sobrevivência por aqui, se vier acompanhada de um sentido político de ter consciência do contexto no qual se cria e se vive, da nossa identidade complexa e diversa, muito diferente do mundo anglo-saxão que as indústrias locais pretendem copiar e impor por aqui para um consumo asséptico e fácil. Não que isto não aconteça nos outros países da A.L. mas se o Brasil – e em se falando em indústrias tamanho sim é documento - assumisse a vanguarda da transformação alguma vez, a história seria outra...mas o gigante continua adormecido e o pais do futuro, nas palavras do escritor austríaco exilado no Brasil de Vargas, Stefan Zweig, ainda não disse a que veio.



Seus filmes possuem um padrão de edições sem arrumação, quase não há fotografia e pouco jogo de câmeras. Isso é uma linguagem própria ou é falta de recursos? (Ana Miranda Costa, 32 anos, Artista Plástica)


Pronzato - Bom, se refere-se aos do “mundo estudantil”, realmente a falta de recursos foi total (“Maio Baiano”, “A Revolta do Buzú”, etc), e também proposital, para deixar bem claro que o filme era solidário às pretensões estudantis de construir com autonomia, por fora de quaisquer aparelhagens. Apenas a logística e as parcerias, os escambos, foram contemplados para a construção e finalização destes materiais. Alguns outros também foram construídos em similares circunstancias e formas de produção alternativas, no calor da hora, fato que extravasa na recepção dos audiovisuais, com total risco da minha parte mas com sentimento de dever cumprido de informar do outro lado das informações da mídia sistêmica. A impulsão para o debate, a construção de espaços políticos, a mobilização que podem vir a provocar estes audiovisuais vão muito mais além do mero fato cinematográfico, reduzido a forma, estética, e jogo de câmeras. O que ali se coloca em jogo não é apenas um jogo de câmeras. Então, de alguma maneira os próprios fatos “pedem” uma estética acorde com o retrato da realidade, porque inversamente, sua função, ao colocá-la nua e crua como ela é, a está negando, a está denunciando, a está colocando no debate, inversamente do cinema dos lobbies e da indústria especialista em maquiagem e fotografia de camuflagem, incluindo aí muitos documentários que abordam o mundo social sem o menor convívio com o mundo retratado e muito menos sem a inserção e circulação posterior nesse mundo para alimentar propostas políticas. Ao contrário, seguem a mesma lógica do 99% das teses acadêmicas que se debruçam sobre aspectos sociais: nunca voltam aos seus “objetos de estudo”, circulam apenas na Academia para galgar títulos e apenas mais títulos para os seus investigadores.
Isto não invalida que eu, por exemplo, voltando as linguagens estéticas, adore o cinema noir dos 40, por exemplo, e o latino-americano feito em seguida – el “índio” Fernández e Maria Félix, Leopoldo Torre Nilsson para me deliciar com a fotografia preto e branco e a iluminação de estúdio daquele cinema que fala da imaginação e de propostas e inquietações pessoais, que também são válidas. No momento, eu falo da realidade, para transformá-la. A falta de recursos acho que reafirma uma proposta política de fazer cinema, acho que é natural, condiz com o que faço e com os temas que retrato. Com maiores recursos tal vez mude algumas coisa – mais fitas para filmar e até com duas baterias, (rsrsrs), um carro da produção para se deslocar, créditos no celular para agilizar a produção, maior tempo e tranqüilidade para organizar a edição, conseguir farto material de arquivo, organizar a divulgação com maior eficiência, maior tempo para pesquisa, e muitos etceteras - o que não pode é mudar o essencial que é a cumplicidade com os de baixo, os que não tem voz, e que o governo, qualquer governo fica achando que dando o arsenal digital completo às parcelas mais sofridas da população, vai resolver o problema de acesso a cidadania. Veja se não que vida útil tem os materiais audiovisuais que o governo e a maioria das ONGS fazem para “acalmar os futuros rebeldes” e a vida útil dos materiais militantes feitos sem o intuito de atender quaisquer programas assistencialistas do governo que for. Portanto, com recursos você pode fazer belas merdas como toda a propaganda política dos governos que nos enchem a paciência regularmente, distribuir editais “a mancheia” para que as empresas privadas continuem lucrando sem aportar um tostão do seus bolsos – apenas transformam impostos em cultura de barganha – e não aportar absolutamente nada para a construção de um autentico olhar latino-americano, filho legítimo da estética da violência e da fome como quiseram muitos ilustres fundadores da dignidade nossa como Che, impulsor de tudo que tivesse a ver com “comunica- ação” quando ministro em Cuba, e ele mesmo escritor/cronista e fotógrafo.



Tenho impressão de que seus filmes sofrem influencia de Glauber Rocha. É isso mesmo? O que você pensa do Cinema Novo? (Cássia Rivas, 30 anos, Socióloga)


Pronzato - Antes de Glauber, até porque só estreitei “laços” com a obra deste visionário intelectual e militante a serviço de uma proposta coletiva, só a partir do momento de vir morar no Brasil, acho que as influencias tem que ser procuradas noutros cinemas contemporâneos, ou até prévios a Glauber, como o de Fernando Birri,( cineasta argentino, propulsor de uma cinema com sabor e índole latino-americana) com seus docu-reportagens na pioneira Escola de Santa Fé (Argentina), ou o mundo altiplânico do boliviano Jorge Sanjinés, e tantos outros como Raymundo Gleyzer, cineasta desaparecido argentino (cujo filme principal – Los Traidores – emblema no mundo do cinema latino-americano de combate teve meu pai – Víctor Pronzato ou Proncet - como ator principal, autor do conto no qual se baseia o filme e o seu roteirista). E o Cinema Novo também se inscreve nesse relato latino-americano dos 50, 60, um rechaço as imposições da indústria cinematográfica ianque e as suas macaquices locais, em plena expansão por aqui nos anos JK até as barreiras nacionalistas que o Jango levantou no inicio dos 60. Claro que estamos falando de influencias um tanto involuntárias, inconscientes, mas acho que de Glauber se tivesse que atribuir ao que faço uma influencia dele, seria a sua postura insistente de uma proposta “pedagógica” de se olhar e se sentir diferente e resistente ao produto de consumo em que a indústria queria -e quer- transformar um ser pensante observador num ser passivo, apto para o consumo indiscriminado de merda visual globalizada e merda local fruto da estrangeira. Por isso, acho Glauber paladino nesse embate. Che, um operário intelectual com uma arma, seu último recurso e seu último combate. Glauber, um operário intelectual com uma câmera, seu último recurso e seu último combate. Uma idéia na cabeça, uma câmera (arma) na mão. É a nossa solução, o remédio para um diagnóstico claro de dominação perene e que segue sendo preterida até pelos governos de esquerda, e que “atuam no mesmo filme da direita” e que quando assumem o poder não tem a mínima coragem de promover um cinema diferente, como o de aqueles anos iniciais do nosso despertar cinematográfico construtor de identidades. Então, ambos permanecem vivos nas suas obras e nas de muitos, espalhadas pelo mundo. Isso é o que vale, isso é o que resta.

Sou membro da UJS-Bahia. Assisti o filme "Revolta do Buzú" e percebi que você mostra tudo o que aconteceu. Ainda assim, ficou uma má impressão sobre o movimento estudantil. Qual sua opinião sobre o movimento estudantil hoje? (Rennan Vieira, 19 anos, Estudante)

Pronzato - Rubén Blades, compositor panamenho, autor entre muitas outras salsas, de Pedro Navaja, diz nesta última canção, um clássico tal vez não conhecido por estas bandas devido ao protecionismo brasileiro praticado com seus vizinhos, inclusive no âmbito da cultura: “...la vida te dá sorpresas, sorpresas te la vida, há, há....”. Pois é, o documentário ao qual você faz referência é de 2003, portanto, em todos esses anos é a primeira vez que escuto (leio) isto, o que é uma verdadeira sorpresa: que ficou uma má impressão sobre o movimento estudantil.
Se por um lado mostrar tudo o que aconteceu, como você coloca, é um elogio descabido já que e impossível abordar uma cidade inteira em levante com uma simples camerinha e o agradeço, a seqüência da sua opinião realmente me surpreende. Se a má impressão ficou para aqueles que desde o governo municipal e/ou estadual da época ou desde o empresariado do transporte local e da população omissa que não acompanhou o levante, olhavam como as suas previsões de cooptação do movimento não eram concretizadas, ai, tudo bem, que fique a má impressão, disso se trata, quanto pior a impressão para o mundo das instituições e do lucro, mas respeitabilidade para o movimento popular e para nós, “documentaristas do lado de cá”. Agora, se essa opinião vem de um estudante que hoje com 19 anos, e na época calculo que com 13/14, a idade da força rebelde maior da revolta, e que ainda por cima imagino teve e deve ter acesso na sua Organização ao farto material que circula na internet, na Academia, em escritos independentes e de segmentos políticos os mais diversos sobre o tema neste pais, além dos testemunhos orais que desde aquela época ainda comentam a maior mobilização vista por aqui desde o quebra-quebra dos ônibus do ano 81, ai a coisa passa a preocupar. Se você que é da UJS/BA, não consegue enxergar por motivos que imagino dependentes de instancias políticas superiores ligadas ao partido que organiza essa força estudantil, e não querem admitir que a rebeldia estudantil tomou rumos imprevistos ocasionando o que eles jamais conseguiriam desde a planificação dos seus gabinetes, não é problema do que mostra o documentário, é problema da interpretação dos fatos. Isto não retira o fato de que todo material audiovisual que pretenda documentar fatos políticos passa por recortes desde a escolha dos entrevistados até a montagem final e que por trás da câmera pode ter alguém que não seja um mero repórter (com todo respeito a aqueles que tentam manter sua independência trabalhando para a hegemonia do poder midiático, se é que tentam) senão um investigador solitário a serviço do coletivo, munido de uma câmera e que além disso milita na causa da solidariedade ao conjunto do protesto e não a um grupo, a coisa muda de figura. Eu pergunto, se o partido e a UJS sabe da força e da penetração que um documentário como esse teve e tem no estado e no país - e até no exterior, estando no Chile trabalhando no filme “A Rebelião dos Pingüins” sobre os protestos estudantis secundaristas que PARALISARAM O PAÍS por uma semana, os estudantes tinham noticias dos baianos- porque não sair do “reduto” dos conhecidos de sempre e construir um audiovisual que dê conta do que, ao seu entender, realmente aconteceu para deixar tão ma impressão do movimento estudantil. A má impressão que pode ter ficado é a atuação do movimento estudantil organizado na UJS, na UNE e demais partidos que tentaram se apropriar das ações descentralizadas da multidão, participando de negociações com os poderes públicos, se auto designando porta-vozes para isto.
O movimento estudantil não é só a UJS, - da qual conheço e comparto com muitos dos seus integrantes observações diárias sobre a realidade local e discuto com eles estas mesmas questões abertamente e em mesas de debates, já que da dialética se nutrem as discussões e a ação- o movimento estudantil também se organiza noutros partidos e ainda em espaços apartidários, que também tem o direito de lutar da maneira organizativa que achem mais conveniente, apesar de não terem todos recursos organizativos similares, (pode até ser um único individuo organizado que lute sozinho pelo que ache justo sem querer entrar no terreno da organização política partidária burguesa e que a sua luta convoque outro e mais outro e assim sucessivamente). Ou acaso aquela revolta teve a sua força arrasadora na massa organizada ou nos indivíduos conscientes (também teve inconscientes que até cobravam pedágio nos cortes, é claro!) que não eram simples gorduras de uma massa informe? Em resumo, e sobre a sua última pergunta, se uma parte do movimento estudantil vai continuar no jogo de interesses apenas eleitorais, em total apatia a uma formação política séria e ampla, que socialize outras dinâmicas políticas que a contemporaneidade nos mostra – Chiapas, o mundo indígena, etc - e que não seja apenas a de vestir a camiseta do Che - sendo cabo de força de instancias políticas superiores em nível local e nacional e até em certas conjunturas do governo federal, sem se entregar de corpo e alma nas lutas maiores de maneira autêntica como na Revolta do Buzú, não nutro esperança nenhuma nesse tipo de movimento.
Criticas como esta as venho fazendo desde aquela época – alias, são os próprios acontecimentos que o filme retrata que falam mais alto- e acho que não abalaram totalmente minhas relações com esse segmento organizado da juventude, apesar de que na última Bienal de Cultura realizada em Salvador alguma mão diretiva me deixou de fora na mostra de cinema e/ou palestra como já estava combinado há tempos. Ossos do oficio....




Pronzato, li uns poemas seus e achei-os maçantes. Você consegue ver relação entre poesia e política? (Caio Fontes, 21 anos, Estudante)



Pronzato - Dentro dessa relação escrevi alguns livros como: “Poesias contra o Império”, “Bolívia Poema Rebelde”, “Canudos não se rendeu”, “Che, um poema guerrilheiro”, “1968, Che, teu nome é uma imensa barricada”, “Poemas sem Terra” entre outros livros de poesia “políticos”. Sei que não é fácil uma absoluta concordância sobre isto, mas sobre se eu vejo relação entre poesia e política, sim, vejo, não consigo ver uma outra coisa entre ambas criações humanas, e tentar tento, não tenha dúvidas que se tempo tivesse para não me preocupar com as questões atuais que dizem respeito ao nosso cotidiano político local e mundial, com as quais trabalho diariamente, o que não daria para escrever sobre o mar que tenho aqui na frente como já escrevi sobre ele numa época – “Lenta Geografia” - , ou sobre as mulheres que amei, que deixei ou me deixaram (mais disto último), ou sobre questões mais profundas e introspectivas ainda que apenas dizem respeito ao interior de sim mesmo, espaço único e cósmico. Mas, a poesia só tem sentido coletivo quando se integra na luta como uma arma a mais e apenas reproduz o que a poesia, a verdadeira poesia do enfrentamento do ser humano contra seu opressor dita ao poeta. Eu não tivesse entrado na política sem as armas da poesia, não poderia me habituar a um escritório político, detesto essa expressão, ainda bem que não tem um escritório poético, já imaginou? aí é o fim do mundo.
Guardo com todo carinho a frase de uma poetisa (ou poeta) mapuche - nação indígena extremamente combativa do sul do Chile, e tema já filmado de um próximo documentário a ser montado – quando, lá mesmo no Chile, no final da exibição do meu filme sobre o Che na Bolívia, com lágrimas nos olhos me disse que gostou do filme porque tem poesia. Foi o maior cumprimento que recebi até hoje como cineasta documentarista: a poesia do documentário, quando a atinge, não é mais do que a poesia da vida, essa interrogação constante sobre a qual nos debruçamos com nossos “armamentos profissionais”. Porem, eu credito essa poesia que ela viu no documentário a poética e revolucionária vida do Che – ele mesmo poeta – além do fato das intervenções próprias que a gente articula para construir a narrativa, ou para contar o conto, como diria Garcia Márquez. Poetas com Neruda, Brecht, Agostinho Neto, só para citar os que tiveram maiores relações com o mundo da política além das suas poesias combativas, mostraram que a verdadeira poesia não pode se omitir das lutas, ao contrário, só pode subsistir se é a partir delas. Até a denominada poesia concreta dos irmãos Campos é uma postura política, mas isto já é um outro papo que pode nos levar a uma mesa de bar, e aqui, pelo que entendo, está se falando de lutas concretas, sem jogos de palavras.


É verdade que você é argentino? Como veio parar na Bahia? E como começou sua relação com o cinema? (Maria Bartira Moura, 27 anos, Estudante)



Pronzato - A minha carteira de identidade diz que nasci em Buenos Aires num inverno do ano da revolução cubana. Diz também que meu pai era italiano e minha mãe argentina descendente italianos e galegos. Portanto, isso, mestiço de culturas importadas nascido em território indígena que alguma vez não teve nem portenhos e nem tango. Mas tem outro documento, o passaporte, essa livreta absurda que pretende remarcar apenas nossas diferenças e que alguma vez teremos que abolir, para começar pelo menos simbolicamente a construir nossa identidade maior- em vez de fronteiras, pontes que nos unam -, que diz que andei durante vários anos conhecendo outros territórios ao sul do rio Bravo ou rio Grande – aquele que nos separa, além da cerca que os ianques construíram, dos EUA -, sem motocicleta pero com diários de viagem, desde o México até o Chile e desde o Panamá até a Martinica, com uma escapadinha de navio para Europa e que desembarquei em 89 neste porto indo-afro-português e hoje brasileiro e baiano. Aqui estudei teatro (me formei em 93 na UFBA e fiz pós na UFRGS em 2002), que já era minha atividade principal na época, dirigindo muitas peças até que percebi que o teatro não teria a penetração que tem o audiovisual para estes temas que trabalho atualmente, e retomei no final dos 90, o percurso iniciado no cinema em 81 quando iniciei na prática no cinema comercial na Argentina na função de meritório de direção (espécie de estagiário aqui) e que continuei no México em alguns filmes feitos por exilados latino-americanos até o périplo citado mais acima em que me instalei por aqui até hoje. Então, praticamente, a relação com o cinema começa ali, nos sets de filmagem – ainda guardo minha carteira de SICA (Sindicato da Indústria Cinematográfica Argentina)-, mas a verdadeira relação começou em casa com meu pai músico de cinema, teatro e TV, roteirista e tal e minha mãe artista plástica, fotógrafa, que me passaram todo seu arsenal artístico e vendo muitos filmes desde criança no programa “Hollywood em castelhano” na TV preto e branco, quase todo o cinema argentino e mexicano em programas específicos e indo no cinema – e no teatro - com eles. Não tive “opção”. Um detalhe, se isto pudera interessar a alguém ainda hoje, em tempos de internet: no final dos 70 ia no cinema principalmente assistir retrospectivas das grandes correntes cinematográficas munido de cadernetas onde fazia observações dos filmes em todos os seus aspectos, depois continuei essa prática assistindo filmes na TV: posicionamento de câmaras, angulações, tempo das cenas, efeitos, cortes, e até as fichas técnicas. De alguma maneira ia me inserir nesse mundo, ainda não sabia como, e uma das possibilidades que foi aparecendo, tomando espaço, “disputando hegemonia” com outras, foi esta, com este perfil político atual que foi surgindo tal vez naquela viagem latino-americana de iniciação, e ficou aguardando sua oportunidade de “me tomar por assalto”. Mas que ia continuar a tradição familiar, já sabia e me preparei para isso.

A imagem do glorioso Che hoje está um tanto desgastada e até mesmo na moda. O seu curta-metragem e o longa sobre o Che são muito bons. Você tem essa mesma percepção? Como você vê a imagem de Che hoje em dia? (Sávio Silva, 28 anos, Estudante de História)

Pronzato - Repetidas estadias na Bolívia (que geraram um pequeno livro: “Do Che ao Evo”) investigando seus 11 meses nesse pais para meu documentário “Carabina M2, uma arma americana, Che na Bolívia” me ofereceram a possibilidade única de ver o quanto de Che permanece vivo nos más recônditos cantos da selva, da montanha e também nas cidades. O mundo camponês da época o ignorou, não houve apoio para a coluna guerrilheira guevarista e sucumbiu sob o poderio de exército boliviano com o inestimável apoio logístico e o treinamento ianque dos rangers. Tal vez por isso hoje Bolívia, numa sorte de efeito tardio de reconhecimento, reivindica a sua permanência no imaginário popular e o MAS (Movimento ao Socialismo) do presidente Evo Morales fez da sua figura o eixo central do seu programa revolucionário camponês/indígena. Tudo isto para dizer que a imagem do Che emerge hoje mais contemporâneo que nunca num país que é o laboratório sócio/político do continente com seus embates até a morte entre a esquerda, acrescida dos novos movimentos sociais e a direita oligárquica. Noutros países também, em âmbitos sociais que realmente lutam por transformar seus territórios, o Che está sempre presente com sua voz e exemplo entre os excluídos. A pesar do desgaste que os veículos (des) informativos ligados às transnacionais e as grandes empresas locais querem impor na figura do Che, porque sabem que a sua autenticidade, sua entrega, sua palavra e a sua ação foram de tal magnitude que o transformaram num perigosíssimo exemplo a ser emulado, eles, esses meios, não conseguem tirá-lo do espaço real e mítico ao mesmo tempo, que os povos do mundo lhe outorgaram. A imagem do Che, penso, cresce mais ainda a cada baixeza desses “jornalistas”, “ensaístas”, “comentaristas” que como ínfimos roedores, capitães do mato a serviço dos seus coronéis, tentam obstaculizar seu avanço através dos tempos. Infelizmente o conhecimento que se tem dele em amplas fatias da população é muito pequeno ainda, mas esse pouco é suficiente para não serem vítimas da desinformação provocada pelos donos do poder real, o econômico. A cada dez anos as comemorações da sua desaparição física crescem no mundo todo, pude corroborá-lo em Rosário, sua cidade natal, ano passado e as suas repercussões no mundo todo. Quanto a moda, é um fenômeno inevitável, tamanha é a sua figura que encaixa em qualquer produto. Mas para os que defendem a idéia de que o Che é apenas uma camiseta, um chaveiro, ou até uma marca de charuto, a triste novidade é que por trás de toda essa apropriação comercial está o verdadeiro rosto daquele que causa o maior espanto ao sistema porque o atacou da mesma maneira, com as armas que o sistema utiliza diariamente para se perpetuar no poder e defender seus grupos privilegiados com o terror diário dos seus exércitos e policiais de extermínio. Pensavam que o Che ficaria preso na merchandising, mas como digo num poema do meu livro “Che, um poema guerrilheiro”: o Che está sempre aí, como atrás de um vidro embaçado.
É preciso estudar o Che, colocar seus livros, suas obras, a experiência de sua vida nas escolas secundaristas deste país, deste continente.


Você tem relação com algum partido político? Outra pergunta: o que você acha da prática de "laranjas" (funcionários fantasmas) por parte de parlamentares de esquerda? (Bruna Tavares, 26 anos, Estudante de Direito)



Pronzato - Relações eu tenho – inclusive de amizade -, relações de trabalho, esporádicas, quase que exclusivamente nalgum momento de tensão social ou mobilização. Ou quando vou nos espaços parlamentares procurar os apoios para fins político/sociais que me correspondem como cidadão que paga impostos até no palito de fósforo que compro e aporto involuntariamente para as instituições legislativas. Seguindo com as relações, as vezes fica difícil construir amizades nos espaços partidários quando há diferenças de visão política, de organização coletiva dentro ou fora dos partidos, já que essa inserção vai ser a mola mestra das relações noutros âmbitos. Para nós, cineastas documentaristas que não participamos de coletivos organizados em partidos, ou em Ongs ou em organizações de outro tipo, - tem outros que sim participam e constroem seus materiais por dentro destes movimentos específicos mas geralmente com circulação restringida a esses espaços- e que transitamos pela diversidade do movimento social em toda sua amplidão não nos resta outra alternativa do que ter um senso crítico bem treinado e aguçado e por tanto, no meu caso, não vejo possibilidades de me organizar verticalmente à maneira partidária, sem ter a possibilidade da minha opinião veiculada no cume da pirâmide, de onde partem as decisões, a maioria das vezes sem consulta às bases ou com mínima consulta, ainda que esta seja “popular”. Acompanho sim pela infinidade de boletins o desenrolar das discussões e propostas partidárias, sobre os diversos temas que me preocupam. Acho que os partidos e seus apêndices legislativos e organizativos da sociedade civil são espaços de acumulação teórica que deveriam cumprir funções de interesse público, além dos períodos eleitorais, quando entram em ebulição propagandística ativando a rede completa de acumulação capitalista do pais através das empresas de marketing e propaganda e toda a cadeia comercial gráfica, TV, etc. Não vejo futuro nenhum no partido na construção política nos próximos anos, nos novos cenários de acumulação de poder das massas famintas e desempregadas e até da sempre omissa classe média, o fiel da balança na hora do limite do protesto, na hora da repressão governamental colocando os panos frios nas rebeliões em conluio com seus representantes políticos e o seu guardiães fardados. Os projetos de liberação nacional, se ainda assim podem ser chamados no continente, não creio que passem mais pelo partido, com todo respeito ao camarada Lenin e a sua época. Novos espaços políticos e não novos clubes de amigos, como parecem ser hoje a maioria os partidos, atuando em função apenas de alianças de amizades pessoais, deverão ser construídos. O mundo mudou, mas não pela eleição de Obama. O mundo jamais vai mudar através de eleições milionárias. O mundo mudou porque novos movimentos sócias entraram em cena, explosivos, irreverentes, fora da programação eleitoral proposta pelos governos, e condizentes com um mundo cansado de um sistema que a cada longos 4, 5 ou 6 anos renova suas bancadas para continuar espoliando o planeta, oferecendo leis e decretos para utilização à vontade dos recursos naturais. O mundo mudou porque o precipício ficou a milímetros da próxima ação predatória das transnacionais, braço da penetração imperialista do mundo desenvolvido e os seus lacaios adormecendo os cidadãos nas rédeas da organização política tradicional.
E é com esses movimentos sociais em construção de um mundo em mutação, e que ainda terão que se desprender dos vícios autoritários que ainda reproduzem esquemas partidários no seu interior, que o mundo pode retomar o rumo de dignidade que alguma vez foi tentado na A.L. pela última das opções: a das armas revolucionárias.
E sobre os laranjas, acho normal sua existência e produto do âmbito parlamentar, onde prima o nepotismo, os conluios entre legendas partidárias, os favores para aceder a cargos, a superpopulação da máquina e dos gabinetes, o dispêndio fabuloso e diário em papel, gasolina, comida, tecnologia, altíssimos e indecentes salários, (para mim a atividade parlamentar – num Parlamento diferente e popular, é claro -deveria ser ad honorem mantendo apenas os salários das suas profissões de origem com uma equipe mínima de um ou dois assessores, igualmente ad honorem) pouquíssima produção intelectual, militante e/ou de transformação política, fora dos interesses da manutenção do poder, e muito tempo laboral jogado na lata do lixo. Pessoas de alta qualidade humana participando desse mundo que “pensam modificar por dentro”. Enquanto pensam isso, a máquina os devora com e comodidades, destruindo o que ainda resta neles de espírito combativo. Vejam–se as queixas que o Che fazia no seu Gabinete quando ministro aos seus colegas e sobre seu trabalho voluntário aos domingos nos canaviais.
Mas tudo isto é o normal e vox populi, não estou descobrindo a pólvora, apenas a estou utilizando para lembrar deste absurdo com o qual convivemos. Para isso existe, para conter o protesto social, o Parlamento burguês.

21 de Maio de 2009

"Essa coisa de 'laranja' é o que todos os deputados fazem, sem exceção."

CAZZO ENTREVISTA A “LARANJA”.

Não foi preciso espremer muito para dar um suco. O primeiro contato com a “Laranja” foi um tanto apreensivo de ambas as partes, levando-me a crer que não obteria as informações precisas, que haveria pensada resistência. Ledo e grato engano. Muito solícita, a “Laranja” ofereceu-me sem pudores detalhes até onde lhe cabiam dessa prática quase regulamentada na casa do povo, a Assembléia Legislativa da Bahia.


Nas poucas vezes que plantei verde para colher maduro, sofri frustração. Não por esperteza dela, apenas porque contei nitidamente com sua total e lamentável ignorância sobre determinados assuntos e, acreditem, uma desabusada ingenuidade.


Mas não se enganem: não retratei seu rosto por precaução e cuidado de minha parte. Dela, veio a precaução de manter sigilo quanto a seu nome e o nome do parlamentar. Mas, ainda assim, por ela, não fosse tão cedo, não fosse a noite de pouco sono – noite bem dormida, talvez –, não fossem as olheiras, inconseqüente, haveriam fotos de seu rosto nesta entrevista.




Cazzo – Tem muito tempo que você é “laranja”?



Laranja – Não, não. Deve ter um ano só. Eu nunca tinha entendido direito esse negócio de “laranja”...



Cazzo – E agora você entende?



Laranja – É... entendo. O “laranja” é, na verdade, uma forma de o parlamentar complementar o orçamento pra ajudar nos custos do mandato.



Cazzo – Quem lhe deu essa explicação?



Laranja – Alguns assessores do deputado.



Cazzo – Como você foi convidada para ser “laranja”? Quem conversou com você primeiro?



Laranja – Ah, isso foi o próprio deputado. Ele que me convidou. Depois disse que os assessores me explicariam o que eu deveria fazer, a questão do procedimento, dos documentos, sabe?



Cazzo – Então, me fala aí, passo a passo, como foi que você se tornou “laranja”.



Laranja – Depois que eles me explicaram o que eu tinha que fazer, eu dei meu nome completo e RG. Uns três dias depois meu nome foi publicado no Diário Oficial e a partir daí eu já podia ser nomeada. Então, eu fui até o RH de lá da Assembléia, com todos os documentos, e fui nomeada Secretária Parlamentar.



Cazzo – E o repasse acontece de que maneira?



Laranja – Então, depois que eu fiz tudo lá no RH, eu fui no banco que fica lá mesmo pra abrir uma conta. Quando chegou o cartão eu avisei pra o pessoal do gabinete. Eles me orientaram para que sempre no fim do mês eu vá até a agência e retire o dinheiro todo.



Cazzo – E você recebe algo pra fazer isso? Você tira alguma “ponta”?



Laranja – Que nada. Tiro nada não. É que pouco antes de eu ser nomeada eles tinham uma pessoa que ficava com os cartões dos “laranjas” e essa mesma pessoa retirava o dinheiro no caixa eletrônico.



Cazzo – E por que não trabalham mais com essa pessoa?



Laranja – Eu soube que foi por dois motivos: um porque ficava muito suspeito uma pessoa com um bocado de cartão na mão. E, além disso, porque essa pessoa só podia tirar de cada conta o valor de limite do dia e isso atrasava um pouco de o dinheiro chegar ao deputado pra o pagamento das coisas lá do mandato.



Cazzo – Esse deputado possui quantos “laranjas” além de você?



Laranja – No dia que eu fui nomeada tinham mais quatro pessoas de lá. Mas parece que tem mais gente sim, que veio antes, né? Isso o deputado nunca me falou não, essa coisa da quantidade de pessoas que ajudam ele...



Cazzo – Como você conheceu o deputado? Você é militante? É do partido?



Laranja – Não, não, nada disso. É assim... como que eu falo... eu tenho um caso mal resolvido com ele, sabe? Já tem uns três anos isso. Eu moro em Camaçari, e na época eu tava acabando a faculdade e ele foi padrinho de nossa turma. Ele foi lá pra conversar com a gente e começou a me paquerar na frente de todo mundo mesmo. No outro dia, ele já tava me ligando no outro dia, tinha conseguido meu número com a comissão organizadora da formatura. Foi assim que começamos o envolvimento.



Cazzo – Vocês ainda se relacionam?



Laranja – Sim. Mas não tem futuro, não. Ele é muito mulherengo, muito safado, eu já desencanei. Tô só passando uma chuva mesmo. Eu quero me casar, mas com ele não rola, não.



Cazzo – Você sabe que a prática de “laranja” é ilegal, não sabe? Você não se sente corrupta por isso? Não o considera corrupto por isso?



Laranja – Não. Assim, claro que não deixa de ser errado meio que contribuir com isso, mas o deputado não é de esbanjar, por exemplo, o carro dele é bem comum, ele não possui grandes patrimônios, não tem fazendas, empresas, essas coisas que ele bem podia ter, mas não tem, eu te garanto. Comparando com uns tantos aí, ele rouba pouco, na verdade, não dá nem pra dizer que o que ele faz é roubo porque essa coisa de “laranja” é o que todos os deputados fazem, sem exceção.



Cazzo – E por que todos fazem você acha normal que ele também faça?



Laranja – Não é isso. Repare, isso é uma coisa que não muda assim de uma hora pra outra, ele precisa desse dinheiro porque senão as coisas não andam, coisas que são muitas vezes benefícios pra um monte de gente. A questão é o modo de usar essa grana, entende?



Cazzo – E como você sabe que todos fazem? Como você sabe que os outros roubam mais do que ele, ou como você diz, que os outros usam o dinheiro de um modo menos compensatório?



Laranja – Isso é engraçado. Sempre que eu vou lá no banco no período de pagamento, quando eu tô mofando lá na fila, eu converso com algumas pessoas que são “laranja” também, sabe? E é nessas conversas que fico sabendo um monte de coisa...



Cazzo – Conta algumas aí.



Laranja – Ah, tipo... tem um deputado que só contrata mulher pro gabinete dele, mas o negócio de “laranja” dele é um pouco diferente. As meninas são universitárias e ele contrata elas como estagiárias, mas nomeia elas normalmente, como secretárias parlamentares. O acerto é que no dia de pagamento elas tiram o dinheiro todo e ficam com o valor equivalente a estagiário, coisa de R$ 600,00 e repasse o restante todo pra o deputado. Dizem que tem outros deputados que contratam “laranjas” e deixam às vezes coisa de um salário mínimo pra pessoa. Pra quem não ta trabalhando já é alguma coisa, né?



Cazzo – É. Mas quanto às estagiárias, elas trabalham o equivalente a estagiárias? Ficam lá por meio-turno?



Laranja – Não. Trabalham o dia todo e ainda nos fins de semana quando tem trabalho no interior. Alguns deputados compensam o “laranja” deixando que use o plano de saúde de lá.



Cazzo – Você usa esse plano de saúde?



Laranja – Não. O deputado até me ofereceu, mas eu já tenho o meu há mais tempo, não ia precisar mudar.



Cazzo – Onde você trabalha?



Laranja – Eu sou fisioterapeuta. Trabalho num hospital lá em Camaçari.



Cazzo – Foi o deputado que conseguiu esse trabalho pra você?



Laranja – Mais ou menos. Pra essas coisas ele é meio lento. É tímido. Ele tinha aproximação com o pessoal da área de saúde na época, acho que tem aproximação até hoje. Ele conversou lá com o diretor do hospital, mas só foi porque eu insisti muito, ele sempre me enrolava. Eu sei que só depois de uns três meses enchendo ele foi que consegui uma vaga lá nos hospital.



Cazzo – Quer dizer, se eu te procurar lá no gabinete dele, eu não te acho?



Laranja – Só no dia do pagamento, e eu nem demoro lá. Pego o dinheiro no banco e entrego à secretária dele. Eu tinha até sugerido fazer transferência direta pra conta dele, mas ele disse que é perigoso, podiam descobrir, podia vazar, sei lá.



Cazzo – Você não acha que há uma contradição entre o discurso dos políticos e essa conduta que eles adotam, a contratação de “laranjas”?



Laranja – É como eu já te falei, todos eles fazem isso, mas ele usa o dinheiro pra segurar o mandato dele, não dá pra ser todo certinho nesse negócio de política, eu até disse a ele pra sair disso, mas não adianta, ele gosta. E é coisa que não tem jeito mesmo, ele mesmo me disse que se ele não fizer isso, se ele for querer ser mais correto que os outros, ele não se reelege, entende? É todo um trabalho que vai por água abaixo.



Cazzo – Mas todos os benefícios que eles recebem não são suficientes?



Laranja – É a forma como usam o dinheiro. Pra os que usam esse dinheiro de forma correta, talvez os benefícios que você tá falando não sejam realmente suficientes.



Cazzo – E o partido dele então sabe dessa conduta? O partido compartilha disso?



Laranja – Ah, isso não sei dizer. Não sei mesmo. Nunca fui lá, nem sei onde fica. Só conheço de nome mesmo, de ouvir falar. Sobre essas coisas a gente nunca conversou.



Cazzo – Então você, de fato, sendo “laranja”, considera-se uma contribuinte do mandato do deputado?



Laranja – Sim. Não vejo essa gravidade toda nisso. Claro que se ele passar a esbanjar com esse dinheiro, a gastar, fazer festa, eu peço pra sair.



Cazzo – E quem lhe garante que ele não esbanja?



Laranja – Eu vejo. Claro que eu não estou sempre com ele, mas eu já fui num dos apartamentos dele e é bem simples, não tem muito luxo, não.



Cazzo – Você já votou nele?



Laranja – Não. Também porque quando a gente se conheceu já tinha passado a eleição. Mas na próxima eu voto nele.



Cazzo – Você conhece o trabalho dele? Algum projeto? Conhece o histórico dele?



LaranjaEu não tenho muita paciência pra essas coisas de política, não. Eu nunca entendo nada. De vez em quando ele dá uns surtos de falar de política, mas é mesmo que nada, eu não entendo mesmo.



Cazzo – Você não tem medo de que descubram?



Laranja – Quem descubra?



Cazzo – A mídia, por exemplo.



Laranja – Nem sei. Se tiver problema, vai ter problema pra um monte de gente, pra os deputados, pra governador, não sei.



Cazzo – Você conhece a origem do termo “laranja”?



Laranja – Eu não.



Cazzo – Nem eu.

25 de Março de 2009

CAZZO ENTREVISTA LUCAS SANTTANA



FIAT LUCAS
por James Martins

o meu favorito é lucas santtana. de tudo o que está à disposição ao vivo, falando de música, eu prefiro lucas, o filho de roberto sant'ana. [nação zumbi acaba de chamar minha atenção: refaço: lucas santtana e nação zumbi, ok]. o fato dele ser um grande tirador de som (como prince, por ex.) ilude muita gente, mas é o lance mais profundo [coloque aqui todas as suas restrições à palavra profundo e eu assino embaixo], aceso e vibrante que temos à solta. chega a ser irritante que hit's como 'deixa o sol bater' ou 'lycra-limão', não sejam hit's de fato porque a indústria do entretenimento é burra. muita gente ainda não conhece o lucas nem de vista. mas é sintomático que todo mundo lembre da sua versão de 'mensagem de amor' (h. vianna) por causa da novela das oito.

eu não sei a opinião do próprio, mas para mim é uma merda que o artista lucas santtana faça parte do cenário alternativo do brasil. eu prefiro pensar em nelson rodrigues escrevendo sobre futebol no jornal. prefiro lembrar que na infância eu ouvia música de todo tipo no bar de 'seu santinho', no curuzu, sem essa besteira de alternativo ou pop. lucas sabe gravar. gosto do som dos 3 cd's. a perícia dele em dub, e toda essa música que vem de dentro da tecnologia, da engenharia do som, mais a sua herança [coloque aqui todas as restrições a isso também] tropicalista, nos faz um bem danado. a bahia antiga e o rio vermelho das casas tipo boomerangue; e o rio de janeiro; jamaica; etc; lugares quentes. ele parece não abrir mão de nada. arto destacou, chamando-o de 'meu parceiro', a sua capacidade pra fazer também canções mais melodiosas.

o site-blog diginois [www.diginois.com.br] também merece menção. pronto, mencionei. acessem. lucas santtana revigora a música de pegada forte via ritmo (porque o 4x4 do rock já deu). treinado e versado em axé e flauta doce, é o meu favorito. "e agora que você sabe amor, quem eu sou, a trupe que eu tô, de que gosto e muito mais", espero que curta a entrevista feita pelo meu amigo cazzo. eu nem li ainda. ei você aí, abra o olho.

Cazzo - Vc faz música pra q?

Lucas Santtana - Faço por necessidade, por urgência e porque gosto MUITO! É uma coisa atrelada a minha vida desde os 13 anos, dignifica a minha existência e dá um sentido para ela.

Cazzo - Como foi a primeira vez q a música te tocou a veia?
Lucas Santtana - Não lembro a primeira, mas foi mais os sentidos do que a veia. E foi forte.
Cazzo - Iggy Pop declarou q por causa da internet o Álbum morreu. O Álbum morreu?
Lucas Santtana - O álbum não morreu, o cd também. Mas o cd perdeu sua função como suporte musical do álbum. O álbum ainda serve para reunir a obra, mas realmente o single, mais conhecido hoje como mp3 já é mais forte. O álbum vai sempre existir para os interessados em percorrer o caminho todo, como ler a história toda de um livro e não apenas um capítulo
Cazzo - Qual foi o último Álbum q vc comprou na loja?
Lucas Santtana - O da M.I.A, arrular.
Cazzo - Você disponibiliza suas músicas no site www.diginois.com.br para serem baixadas. Pra onde vão seus direitos autorais? Como ficam seus direitos autorais?
Lucas Santtana - Meus direitos autorais continuam iguais. Quando licencio músicas para games, filmes, novela, propaganda, enfim, quando toca no rádio, na tv, etc..eu ganho por isso. Na internet resolvi liberar e possibilitar às pessoas a participação: baixar, copiar, remixar, mashupiar. Sem fins lucrativos. Se for comercializar isso tem que me pedir autorização. Simples né? Direito autoral o nome já diz, é do autor. Ele que tem que decidir o que quer fazer com a obra.
Cazzo - Vc ouve Rádio no rádio ou na internet?
Lucas Santtana - Em nenhum dos dois. Ouvia no carro, mas quebrou o aparelho já fazem uns 3 anos.Ouço o que eu baixo, ganho ou copio.
Cazzo - Em Salvador, não ouço suas músicas nas Rádios. E fora daqui toca música do Lucas Santtana?
Lucas Santtana - Como toca aí, em algumas rádios, alguns programas específicos, mas nada massificado. Sem jabá é difícil né? Tem que contar com o tesão do radialista, hahahaha.
Tijolo a tijolo, dinheiro a dinheiro [Lucas Santtana]
Cazzo - Arnaldo Antunes disse q hj já não há mais espaço para Movimentos [Bossa Nova, Tropicália etc], principalmente pq, segundo ele, existe hj uma multiplicidade de coisas acontecendo,q sofrem a influência de coisas múltiplas. Essa declaração, pra vc, faz sentido
Lucas Santtana - Sim, total. Mas o fato de não haver espaço não significa que eles não possam acontecer novamente. Até porque hoje também existe uma descentralização mais forte. E nas cenas regionais pode estourar algum, como aconteceu com o mangue beat nos anos 90 em Recife. Outra questão é que os movimentos hoje não precisam ser nacionais e para muita gente para serem autênticos. Numa cidade do interior pode acontecer um movimento importante para a cena local e isso não precisa ter um reconhecimento nacional para legitimá-lo.
Cazzo - Arto Lindsay vê Psirico com bons olhos. Com q olhos vc vê o Psirico?
Lucas Santtana - Eu conheço o Marcio Victor(líder do psrico) faz tempo. Ele gravou percussão no meu primeiro disco. Arrebentou. Ele é muito bom. Do psirico só conheço as músicas que rolam no carnaval. Como aquela “ave marcio victor” que é ótima. Gostaria de ver um show.
Cazzo - Max de Castro, em seus discos, parece muito influenciado pelas leituras q faz. Sua música sofre alguma interferência literária?
Lucas Santtana - As vezes sim. Não só literárias, cinematográficas, jornalísticas e por ai afora.
Cazzo - Parafraseando Antônio Abujamra: qual grande autor vc já ouviu? E qual grande autor vc ainda não ouviu?
Lucas Santtana - Essa pergunta não faz sentido. Abujamra tem um defeito que é comum a todos da sua geração, a egotrip do intelecto, hahahaha.
Cazzo - Que música não toca no seu Média Player? E qual música não sai do seu Média Player?
Lucas Santtana - Qualquer música que eu goste toca no meu computador ou ipod. Enquanto couber ,todos lá ficaram, quando encher eu vou trocando.
Cazzo - Minha relação com a Bahia é de amor e ódio. Como anda sua relação com a Bahia, num sentido mais generalizado?
Lucas Santtana - Hahahaha, a minha também é assim. Acho que não chego a um sentimento de ódio. Generalizando, o que me deixa mais triste é ver que a baianidade, algo tão natural ao povo baiano tenha se transformado na caricatura de si mesmo. Isso foi emburrecedor para a Bahia. Mas tenho visto melhoras na área cultural. Conheci os meninos do Ministério Público Sound System no Carnaval. Foi um encontro positivo. Gosto mais de quem faz do que de quem fica reclamando.
Lycra-limão [Lucas Santtana]

2 de Fevereiro de 2009

"CIRCO É COISA DE PALHAÇO!"

CAZZO ENTREVISTA PALHAÇO AMOROSO

Com os pés bem fincados na Faixa de Pedestres – em prolongados 75 segundos – Palhaço Amoroso nunca pisou num picadeiro, e faz do riso prato cheio no dia a dia da sinaleira do Vale dos Barris, quando encara, a priori, rostos robustos, enfezados, trêmulos, nervosos ao volante que, aos poucos, e poucos, se abrem diante da performance deste doce e despretensioso lavador de pára-brisas.

Ex-auxiliar de escritório, ex-empresário, ex-monge Hare Krhisna, ex-mímico na Índia. Palhaço Amoroso, autodidata, não vê TV, não acredita na melancolia que tantos se referem aos palhaços, prefere mesmo estar alegre o tempo todo, assim como a leve e desobjetiva alegria das crianças, que fazem graça pelo simples fato de serem crianças.

Porque despreza a idéia, preza pelo vazio da alma; e seus minúsculos olhos – quase encobertos pelo gigantesco nariz no meio da cara –, vêem neste vazio da alma todo o preenchimento da necessária sensibilidade pra se levar a vida.

Se na sinaleira, ao fim da performance, no lugar da moeda, lhe dão um sorriso, Amoroso, alma aberta e lavada, não ignora, toma pra si, como quem guarda um tesouro.


Essa coisa de palhaço mesmo eu comecei foi na Índia, eu já era ator, não teria como me comunicar em português, acabei trabalhando como mímico lá. Aqui é que comecei a me caracterizar mesmo como palhaço, fui descobrindo a lidar com público, na rua, não aquele público preparado, já sentado esperando o espetáculo, era coisa de esperar várias reações e de minha parte também. A gente vê as pessoas muito complexadas, se o palhaço chega, a pessoa olha assim, tem muito a coisa da timidez, né? Porque timidez é o ego de ponta-cabeça... então comecei a cutucar, por que as pessoas não conversam como antigamente? Será que é a crise? A violência? Eu descobri que é o preconceito. Muita gente pensa que o palhaço aqui é um desempregado, desesperado que pintou a cara e foi pra rua pedir dinheiro, e assim a gente vai pensando do vizinho, da pessoa ao lado no ônibus, mas a gente só vai saber quem é a pessoa de verdade, comunicando com ela. Porque o resto é só imaginação. As pessoas perdem a oportunidade de amizade, de trabalho, até de casamento por causa do preconceito. E acho que o que faz as pessoas alimentarem esse preconceito são os nossos meios de comunicação, eles enchem a cabeça das pessoas com tanta notícia sensacionalista, que a pessoa sai de casa cheia de informações achando que está segura, mas ao contrário, ela tá distraída, ela tá cheia de medo, e isso é prato cheio pra o ladrão. A verdadeira informação tá na gente, como tá nossa cabeça, como está nosso corpo, depois disso é que a gente vê com clareza as coisas.

O trabalho no ônibus eu fiz por muito tempo, e foi bom, eu via muito as pessoas comentando, começam a olhar um pra o outro, quebra um pouco esse gelo nas relações.
Depois de um certo tempo, eu fiz trabalho em Universidades, em Centros Culturais, mas eu costumo dizer que meu trabalho não é só como palhaço, embora o palhaço seja o mais difícil, porque palhaço não é bem ator, é a coisa do improviso, tem que estar atento, tem que estar vazio, ele não pode pensar em tirar o sorriso da pessoa, se ele pensar ele tá buscando resultado, e se ele busca resultado ele não vê o que tá acontecendo no momento, tem que ter sacações... e esse trabalho que eu comecei a fazer nas sinaleiras é fantástico, as pessoas ficam presas ao tempo, e o lugar onde acontece bem isso é no semáforo, o sinal marca o tempo, a pessoa tem que resolver coisas, tem que alcançar objetivos, a pessoa quer ganhar tempo, ganhar mais tempo pra ter tempo pra viver. Então fica nessa correria o tempo todo, mas o tempo não se ganha. Nas sinaleiras eu percebi que as pessoas estão sempre ansiosas, elas não vêem, não enxergam ninguém, já têm resposta pronta, você chega perto do carro ela já tá dizendo “não, não, não”, mas “não” o que? Entende? Eu percebo o grau de estresse das pessoas, eu vou lá e quebro um pouco isso, porque eu vou com um balde, a pessoa pensa que é água e já leva aquele susto... depois é que vem um sorriso.

Olha só, essa coisa de quando que me tornei palhaço sempre me perguntam, desde pequeno que eu sou palhaço, eu sempre interagi, na sala de aula eu imitava o Mazaroppi. Quando a pessoa é muito condicionada pela educação, por fórmulas, padrões, ela fica fechada, se torna séria, e essa seriedade não é a verdadeira seriedade. Seriedade é quem tá vendo a realidade. A pessoa que passa na rua com uma pasta, ou uma Bíblia debaixo do braço, ela parece uma pessoa séria, mas não é, ela está fechada, presa num objetivo, e a pessoa assim dificilmente brinca, dificilmente está relaxada, está sempre tensa, procurando alcançar objetivos. A coisa do palhaço vem do vazio, a cabeça tem que estar vazia, não que o palhaço seja um estúpido, pelo contrário, o estúpido está sempre com a cabeça cheia de coisas, mas um estado de vazio é um estado sem tagarelar muito, sem objetivos, interesses... em toda família tem sempre uma pessoa que quebra o gelo, é o chamado palhaço da família.
Então, o palhaço é o estado de inocência, de vazio, sem informações, sem preconceitos, né? Eu ainda pequeno já tinha esse talento, a educação faz o contrário, destrói o talento, cria fórmulas. O que faz a gente se tornar palhaço é interagir com as pessoas, o fato de estar vestido assim já tira a gente dos padrões, chama a atenção, as pessoas reagem, e isso a gente percebe. A coisa do palhaço é bem parecida com a criança, quando chega numa casa cheia de adultos, ela quebra todas as convenções, o avô que tá fechado, cheio de doenças, já abre um sorriso, a criança não tá ali pra dar idéias, nada, ela tá descobrindo, e isso encanta as pessoas. O palhaço é bem isso aí.

Nunca tive contato com circo, sempre me perguntam em que circo trabalhei. Essa coisa da tradição mata a criatividade, a técnica... eu nunca fiz nenhum curso pra ser palhaço, eu sou autodidata, pinto, me maqueio sozinho, faço artes plásticas, toco percussão... é na rua, com as pessoas, que vou descobrindo, vou aprendendo, eu não vou pra rua sabendo o que vou fazer, lá é que aprendo, vendo as pessoas fechadas, quase mortas.


Em São Paulo, eu trabalhei com auxiliar de escritório, vendedor, no Rio fiquei sete anos, fui empresário, viajei pra Índia várias vezes pra comprar produtos, mas essa coisa de empresário, me sufocava, me cansava, então me decepcionei com essa vida de escravidão, larguei tudo e decidi vir pro Nordeste, pra um lugar eu tivesse praia, pra respirar e viver só de arte. Já estou aqui há oito anos e vivo disso, faço trabalho nas ruas, faço animações em festas, aniversários, shoppings, mas só não faço propaganda, não fico vinculado a nenhum tipo de produto, de marca, nossa cultura é muito propagandista, prefiro minha liberdade, e nem com políticos faço trabalho. Acho uma palhaçada!

Olha o despertar pra essa coisa de palhaço aconteceu lá no Rio ainda, eu era empresário, na época tinha acontecido o Plano Collor, eu levei um rombo, fiquei sem aquela estrutura financeira que eu buscava, foi nessa que tomei um baque, comecei a ver que eu tava cobrando de mim um status, foi aí que perdi tudo, e isso foi maravilhoso porque, já aqui, comecei a ir pra praia, comecei a me sentir livre, a questionar as relações familiares, as relações religiosas, eu comecei a me livrar de tudo mesmo, eu era filho do medo.

Eu fui monge hare-krhisna, ainda em São Paulo isso, entrei no Templo com 18,
me livrei aos 42. Eu to com 51 anos hoje. Quando eu me livrei dos condicionamentos da religião, dos dogmas, quando enfim dei o passo pra o abismo, quando me livrei disso tudo, passei a enxergar com meus próprios olhos, porque até então eu enxergava com os olhos do guru, da minha família, do meu pai, passei a ser sensível a ponto de não aceitar a própria autoridade que vinha de mim mesmo, até porque essa é a pior autoridade que existe, me livrei disso, da mais difícil, porque a gente cresce e tem que ser isso ou aquilo, né? Já começa assim: “você vai ser o que quando crescer?”, quer dizer, a criança já entra nessa de competir, a educação é o que mata a criatividade da criança, porque nossa educação é baseada na punição, no castigo, na recompensa, a criança já cresce com medo, com medo do que vai ser, do que não vai ser, nossa educação liquida nossa sensibilidade, essa coisa da sensibilidade é quando você vê com seus próprios olhos, só se pode ser sensível se não temos medo.

Com 16, 17 anos eu tinha muitos conflitos, relações com drogas, bebidas, e com isso a cobrança da sociedade, minha formação é católica, por causa da família, tinha aquele Deus do medo, né? E no movimento Hare-Krhisna o que me despertou foi o fato de ver pessoas diferentes, roupas e costumes fora dos padrões daqui, né? Eu era auxiliar de escritório, já tava virando empresário, tudo muito repetitivo pra mim, aquelas roupas, aquelas pessoas cantando nas ruas, uma cultura diferente, incensos, vegetarianismo, grande literatura, histórias fantásticas, tudo isso me deslumbrou, mas era também uma fase de conflitos, entende? Havia ali também uma vontade de conhecer a vida, né? Saber porque que a gente morre, e eles têm a resposta pra tudo, né? (risos) E por muito tempo eu dormir com essas respostas, porque era como uma droga, eu substitui as que eu usava por outra, porque a pior droga mesmo é a idéia, a droga em si não é tanto problema, o problema é a idéia. Só que a partir de um momento eu comecei a excluir um monte de gente em minha vida, minha família, porque não eram vegetarianos, logo, eles iriam pro inferno, eu iria pro céu, alguns amigos.

E quando eu estive na Índia, eu já tava meio fora dessa onda toda, e lá foi que eu vi a coisa de perto, lá todo lugar é sagrado, tudo é sagrado, eu estive lá quatro vezes, eu passava um mês, comprava coisas lá, e voltava. Eu tava de comerciante, comprava coisas e pedia ajuda pra Deus pra passar na Alfândega (risos).

Eu comecei a questionar todos os mestres, comecei a cutucar, eu tinha uma peça chamada Kali, que falava dos pecados capitais, mas era um tanto ortodoxa, acabava sempr cantando Hare Krishna. Daí eu mudei um pouco, botei música budista no meio, comecei a chamar Deus de Jeová, e isso começou a incomodar as pessoas do Templo. Eu cheguei a perguntar pra um guru que já que Deus é um só e absoluto eu poderia chamá-lo de Jeová e não só de Krishna, mas aí ele me disse que o nome Krishna tem uma porcentagem a mais, uma medida maior do que os outros (risos soltos).

Porque meditação não é uma coisa separada da vida, você comendo você medita, fazendo sexo você medita, trabalhando você tá meditando, meditação é estar atemporal, não é dispensar a memória, a memória é importante, mas quando a pessoa dá atenção demasiada à memória ela se torna rei, e por causa da memória começam de novo os objetivos, as metas, e a pessoa sente prazer em projetar um estado de realização, seja espiritual, seja material. Por que, no fundo, o que é o pensamento? Aí, você vai procurar na memória, pode ter resposta acadêmica, uma resposta solta, mas esse tempo que te fez procurar a resposta isso já é o pensamento. Então as pessoas perderam a sensibilidade porque a memória é que tira de nós a percepção total das coisas.


Deus é o agora, Deus é você, Deus é uma coisa viva, não é idéia, é o tudo agora, você me entrevistando, eu falando, o rádio tocando, o barulho lá de fora, a brisa entrando aqui, isso é Deus. E nada daquelas verdades absolutas me abala mais, porque o medo existe e tá sempre relacionado a algo, a gente tem medo de alguma doença, medo da mulher abandonar, medo de perder o filho. O medo, de fato, não existe no presente ativo, ele só existe quando você pensa. Você projeta algo que pode acontecer, por isso o auto-conhecimento é um negócio fabuloso porque a gente começa a se conhecer a cada momento, se percebe o tempo todo, porque tudo é ilusório, tudo é fictício. E fora o medo maior que é o da morte mesmo, que é um fato, né? Mas o meu medo mesmo é o medo da morte psicológica, que é tudo o que a gente acumula desde pequeno na vida, o nome, as referências, as crenças, a família, todas essas informações, porque a morte é o desconhecido, a gente não sabe o que vem depois, o medo, na verdade, é da perda do conhecimento, porque o desconhecido a gente já desconhece, o problema é perder o que já se conhece. Porque o pensamento é bom, mas pode ser também o teu pior inimigo. É justamente quando a gente quer a segurança na vida, e o que é a segurança? É ter a certeza de que não aconteça uma determinada coisa no futuro, é se assegurar de que não vai acontecer algo inesperado, a segurança é a maior desgraça da humanidade, as pessoas acumulam fortunas, outras tantas passam fome por isso, a própria relação amorosa vira mesmo um esquema pra você não perder a pessoa, pra se sentir segura, quase nunca tem a espontaneidade, há sempre a coisa de um testar o outro, sempre o medo de perder, deixa de ser uma coisa natural e vira um jogo de estratégia a relação. A vida não tem método, não tem fórmula, você que tem que se perceber.

O lance é o seguinte: a tradição mata a cultura, a criatividade. Veja aí, a coisa do Natal, Festa Junina, é sempre tudo igual, repetição, nada de novo, coisa horrível, eu me considero uma pessoa criativa, eu vou lá e faço, sabe como é? E referências a gente tem sempre que estar mudando, eu já assisti muita televisão, já faz quase dez anos que não assisto, depois que parei de ver TV, eu me tornei mais criativo. Porque a televisão faz a gente ficar se comparando, e o que é pior, faz a gente imitar. Então, meu trabalho, esse da sinaleira, foi um insight que eu tive.


A mudança começa na gente, a maior escola que existe é a relação que você tem com as pessoas, tua família, teu patrão, tua empregada, teu filho, nisso a gente descobre nossa arrogância, nosso autoritarismo, por que a gente é arrogante com nosso filho? Pra que ele fique sempre dependente, cheio de medo, medo de errar, então, eu vejo que nas relações em geral, a gente começa a se perceber, no dia a dia, não existe mudança via ideologia, religião, nada disso, a mudança que há é o agora, porque, repare, a gente espera que o mundo todo mude pra gente mudar. Depois que deixar de existir político ambicioso, eu deixo de ser ambicioso, mas, no fundo, você tá querendo o lugar dele.

O nome Amoroso quem colocou foi um cara de lá do Templo, chamado Lúcio, um maluco, astrólogo, um dia eu tava lá vestindo uma roupa de palhaço e disse a ele que precisava ter um nome de palhaço, ele foi lá e disse: “Amoroso”. Eu achei legal esse nome. Veja só, eu fui iniciado com nome de palhaço por um maluco
(risos).


2 de Dezembro de 2008

Ô, velho, trás uma cerveja, aí, cara!

CAZZO ENTREVISTA LUIS PARRAS

Fotos:
87,9% Wendell Wagner
11,3% Cazzo
0,8% Paula
Soneto da esparramada prosa

E nem chega mesmo a ser esparro
O esperado contato com Luis Parras
Pois se no contrato diz: tirar sarro
De fato verbo salta sem amarras.

Ora veja onde há delírio há disparo
Doses de cerveja e inúmeras seletas
No bar a noite a vida uma festa
Embora sem q percebam vou lá e paro.

Finjo na cara barbada a face bêbada
Quando a conversa diversa nunca cessa
Peço a conta enquanto há luz acesa

Porque lá fora a fosca lua nos espera
Na marcação em linha turva de uma peça
Cantando os sambas de um tempo q já era.
[Cazzo Fontoura]

Cazzo – Me fale, aí, Parras, da sua aventura na Caminhada da Consciência Negra, que rolou semana passada.

Luis Parras – Eu tinha chegado em casa, tal, pra fazer umas paradas, na hora que eu to saindo assim, tava bem na hora do Muzenza, eu, inocente, falei: “Porra, vamo junto, né?” Entrei no meio... o que , meu irmão? O que? Não sei como, mas por algum sinal divino, eu resolvi arrancar umas mudas de arruda e de mirra e comecei a distribuir pras pessoas, isso deu um “axé”, né? Pensaram que eu era do babado... mas, o que? Altos empurrões, assim mermo, na cara dura, e as mãos no bolso, né? Tentando me roubar... eu pensei que no próximo Carnaval, velho, eu vou encher o bolso de moedinhas assim escrito: “Perdeu, Playboy!” Foi sinistro, cara, a Paula não agüentou, tirei o celular, botei na cueca, botei o dinheiro na mão, e fomos.

Cazzo – Eu queria aproveitar pra falar disso mesmo, Parras, dessa questão de raça, velho. Como é pra você, um branco, sobrevive em Salvador (digo isso porque aqui todo mundo é ou tem que ser afro-alguma coisa, né? Se tu tem parentesco alemão, você aqui é afro-germânico, se tem parentesco japonês, é afro-asiático ou afro-nipônico... no meu caso, que tenho a cor meio sem cor nenhuma, sou afrodisíaco...)

Todos na mesa – Hahahahahahahahahaha...

Cazzo – Então, Parras, como é ser minoria em Salvador?

Luis Parras – Veja bem, eu cheguei em Salvador há 13 anos. Naquela época, a gente tava no auge de um movimento que se iniciou nos anos 80, na valorização do cabelo, da trança, que eu acho extremamente importante, mas 13 anos atrás isso estava bem consolidado por aqui, era a época que você não podia chamar um cara de “negão”, porque já tinha uma conotação pejorativa e tudo mais. Mas, assim, constantemente eu era chamado na rua de “amarelo”. Eu pensava: “Pô, nem japonês eu sou.” Se me chamasse de “branquelo”, é nenhuma. Mas quando me chamava de “amarelo” eu me ofendia. Não tenho margem pra afirmar que quando me chamavam assim estavam sendo racistas, não mesmo. Primeiro, porque como eu moro aqui no Centro Histórico, então eu sou “gringo”. Mesmo eu falando gírias daqui, não adianta, não acreditam, não me levam a sério, achavam que eu não sou brasileiro. E nem cito tanto as situações de certa rispidez, como no caso do Muzenza que contei agora há pouco, eu nem caio nesse mérito porque eu prefiro falar do ponto de vista social que está dentro dos parâmetros normais. Uma vez, eu e a Paula fomos a um encontro de entidades religiosas, a gente encontrou um amigo meu de lá do Rio, o Aderbal, que é negro, e quando chegamos lá pra ver ele, tinha uma mesa assim em que haviam apenas negros. Então, a minha chegada, ao lado de Paula que tem a tez mais pigmentada, e ela me apresentando como marido dela, causou certo espanto naquelas pessoas, uns olhares estranhos... daí o Aderbal levanta, me abraça e isso causou mais espanto ainda. Mas apesar disso, a gente vive aqui numa convivência até pacífica, não digo que há violência, mas há um certo descaso dentro de alguns círculos, como já aconteceu comigo quando encontrei a Daniele, uma amiga minha que é da UNEGRO, que quando cheguei com ela numa roda de pessoas, todos negros, eles simplesmente pararam de conversar, interromperam a conversa com a minha chegada. Acaba sendo um racismo às avessas, né?

Cazzo – Você não acha que está havendo mesmo uma coisa que o Sartre falou, que é isso mesmo que tu disse aí, o racismo às avessas? Aqui em Salvador tá começando a rolar isso...

Luis Parras – É, rapaz, na verdade, isso acontece no Brasil todo, mas creio que o que está acontecendo é uma fragmentação do movimento social como um todo. Esse ano completamos 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Direitos humanos que deveriam incluir todos os seres humanos, né? Quem tá fora dessa Declaração? Ora, o cachorro, a planta, o mosquito, o gato siamês... mas o que a gente vê é uma guetização dos movimentos, estão querendo lutar pelos direitos dos gays, pelos direitos dos negros, pelos direitos dos índios, pelos direitos...

Cazzo - Dos albinos...

Luis Parras – Dos albinos. Então, veja só, cada um procurando pelo seu direito. Mas, peraí, se cada um for lutar pelo seu direito, então a gente extingue a Declaração dos Direitos Humanos e vamos ver qual grupo tem mais força. O mais natural é que todos nos uníssemos e lutássemos pelos direitos humanos, porque fica uma coisa assim: “Vou defender a minha patota, a minha galera.”
Cazzo – E fica um negócio parecido com religião, né? Uma coisa de auto-afirmação o tempo todo, como quem legitima a própria fé...

Luis Parras – Pois é, cara... [se dirigindo ao garçom] ei, meu querido, trás uma cerveja, por favor!

Cazzo – Já que você falou em crise, você está aí às vésperas da Bienal da UNE, que rola no fim de janeiro de 2009, eu queria mesmo que tu me dissesse qual o papel, qual a importância de uma Bienal? Porque há uma nítida crise no movimento estudantil, a UNE onde aparece é desacreditada pelos próprios estudantes, é alvo de chacotas...
"A UNE hoje é muito mais forte do que nos anos 60, mas hoje ela consegue comunicar muito menos, só se a gente tivesse uma televisão. Porque não adianta a gente ter uma revista, um blog, um site. O site da UNE é o terceiro “ponto org” mais visitado do país, mas isso não é suficiente pra garantir a sua aceitação no movimento estudantil."

Luis Parras – É como você disse, é mesmo uma crise. Se há uma crise generalizada nos movimentos sociais, o movimento estudantil não tem como escapar. Historicamente, a Bienal foi criada na gestão do Orlando Silva [Ministro dos Esportes], que por sinal foi o único presidente negro da UNE. Ele criou a Bienal com o intuito de fazer uma espécie de fórum para atrair os estudantes para dentro do movimento estudantil, para fazer o diálogo com aqueles estudantes que não estão muito interessados em movimento estudantil... não estamos mais nos anos 60, não existe um inimigo em comum, vivemos num país capitalista e o que importa hoje é que as pessoas querem se formar e entrar no mercado de trabalho, conseguir emprego e ganhar sua vida. Acho que a Bienal cumpre seu papel, com muita dificuldade, porque ela também não escapa a essa crise. Então, veja só o que acontece, na pior das hipóteses, o movimento estudantil deveria lutar pelos direitos dos estudantes. Na UNE, hoje, existe a Diretoria dos Estudantes Negros, a Diretoria do GLBTT, que já não é mais esse nome, muda toda hora, agora é LGBTT... então tem essas Diretorias, então chega um cara de uma dessas Diretorias pra mim, que sou o Coordenador Geral da Bienal, e me pergunta: “A gente quer saber qual é o espaço dos negros na Bienal?” Aí, eu digo pra ele: “O espaço dos negros é a própria Bienal, amigo.” Porque nessa Bienal nós extinguimos os “espaços”. Nas Bienais anteriores existiam realmente os “espaços”: GLBTT, dos Negros...

Cazzo – Tinha isso, é?

Luis Parras – É, cara.

Cazzo – Você chegou a se formar em Artes Plásticas na UFBA?

Luis Parras – Orgulhosamente fui jubilado pela Escola de Belas Artes da UFBA.

Paula [falando baixinho] – Ele adora dizer isso...

Cazzo – Hahahahahahaha... por que, rapaz?

Luis Parras – Eu tinha entrado no movimento estudantil, entrei em 98, até 2000 estudei direitinho, em 99 teve a primeira Bienal da UNE, a gente ajudou lá, eu achei a primeira Bienal uma porcaria...

Garçom – Mais uma cerveja, aí?

Luis Parras – Trás sim... e trás uma seletinha também.

Garçom – Tá ok.

Luis Parras – Obrigado. Aí, eu achei muito ruim a Bienal, encontrei no ano seguinte o pessoal da UNE e disse a eles que achei uma merda mesmo. Daí eles pediram pra eu fazer uma proposta melhor. Eu disse: “Olha!” Beleza. Eu, na época, a minha companheira era a Priscila, mandamos a proposta, eles aprovaram. Por conta disso, acabei sendo jubilado, né? Dei um tempo em São Paulo, em Goiânia, um monte de lugar...

Cazzo – Mas o pouco tempo que você passou na Academia foi válido? Eu, particularmente, acho muito esquisito aprender artes plásticas na Academia.
"Quando eu comecei a freqüentar o meio de arte, eu percebi que era tudo uma mentira, não tinha espaço pra todo mundo, o mercado é muito fechado. De cara, eu vi que não queria aquilo. Eu comecei a detestar essa coisa de artista, de coquetel, abertura, comecei a ficar de saco cheio desse negócio."

Luis Parras – A Academia Nacional de Belas Artes foi fundada em 1826, pela missão francesa. De lá pra cá as Escolas de Belas Artes seguem o mesmo padrão, eu acho que a Universidade em si é que se fechou pra sociedade. Então, assim, se o cara entra na Faculdade de Artes Plásticas, ele vai se inserir, do jeito que der, no mercado de trabalho, pra sair de lá como designer gráfico, cenógrafo... se eu soubesse disso, eu tinha feito arquitetura. A Escola de Belas Artes, em si, não me ajudou em nada na minha vida de cenógrafo, não aprendi nada lá que tenha usado nos meus trabalhos. Agora, o ambiente da Universidade foi importante, pessoas que conheci, algumas foram fundamentais na minha formação, alguns artistas... mas o currículo da Escola não afetou em nada a minha vida.

Cazzo – Mas você já pintava antes, né? Desde que idade?

Luis Parras – Desde os 10 anos de idade. Desenhava desde os 4 anos. Eu morava em Minas Gerais, e tava levando uma vida muito doida lá, batendo carro... jovem, né? Tava doidaço! Uma vez bati um carro lá, capotei e pensei: “Tenho que dar um jeito em minha vida.” Abri o Guia de Estudantes. Eu já pensava em fazer Belas Artes, até porque eu já fazia conservatório de arte lá, História das Artes e Pintura. No Guia tinha o curso daqui de Salvador, com várias estrelinhas, como um dos melhores do Brasil. Falei: “Vou pra Salvador. É pra lá que eu vou.”

Cazzo – Assim na “doida”?

Luis Parras – É. Eu bati o carro no domingo, na quarta eu tava vindo pra cá. Minha irmã já morava aqui, tinha me chamado antes. Liguei pra ela, avisei que tava vindo. Isso foi em 96, fiquei dois vagabundeando, até que em 98 entrei na Escola, com o único intuito de me tornar um artista, ganhar dinheiro pra caralho e ficar famoso. No mesmo ano que entrei pra Faculdade, briguei com a minha irmã e fui morar numa república de estudantes, lá no Cabula, eu precisava pagar contas... comecei a ler sobre Dadaismo, Situacionismo, li algumas coisas, e de repente eu vi que eu queria acabar com o meio de arte, destruir o meio de arte. Rapidamente também eu comecei a trabalhar com cenografia, um trabalho em equipe, um trabalho fantástico, técnico, manual, não essas viagens de artista, o cara tem que ser bom ali no que faz, como o pedreiro tem que ser bom, como o médico... porque a arte é muito subjetiva, né? O cara chega num paredão, pinta um pontinho preto e diz que custa R$ 200.000,00? É muito subjetivo. Pra mim é que nem carro: o carro é bom porque o motor é assim, desenvolve bem e não matou ninguém esse ano, não capotou. O Eco Sport XR3 saiu de linha por isso, capotava muito. Na arte não tem esse critério.
"Acho, sinceramente, que o cara pra fazer artes plásticas não precisa entrar na Universidade. É desnecessário. Um curso técnico resolveria. Se a questão é a técnica, cria um curso técnico, pronto. Os grandes artistas dos anos 70, nenhum deles se formou na Universidade: Hélio Oiticica não se formou, o Tunga era zootécnico..."

Cazzo – E quem são suas influências, Parras? Nas Artes Plásticas.

Luis Parras – São muitas, cara. Foi assim: eu comecei a pintar porque eu andava muito de skate. Eu botava aqueles desenhos, eu recortava a foto do skatista que eu gostava e botava um monte de papel por trás pra ficar durinho e pendurar na parede do quarto. Teve um dia que tô lá cortando, tal, quando eu olho atrás, era uma revista sobre Van Gogh. Eu comecei a ler. Eu parei de cortar e comecei a ler aquele negócio. Tinha também Renoir, eu olhei e disse: “Eu já pintei um negócio desse.”

Cazzo – Só faltou, na época, achar que era a reencarnação do Renoir.

Parras – É, eu nunca acreditei nisso, mas se acreditasse, ia achar. Comecei a pirar com aquilo. Passei a reproduzir a obra de Renoir. Conheci outros impressionistas e passei a reproduzir também. Quando entrei na Faculdade, eu era muito ligado em Renoir e Monet, sobretudo na cor e em cima da vida deles, né? Não é bem a influência no meu modo de pintar, mas a história de vida e o que a pintura desses caras representou na História da Humanidade é o que mais me influencia. Um cara desses é o Giotto, pintor da transição da Idade Média para o Renascimento, é o primeiro cara que quebra dogmas da pintura na época, por exemplo: o céu tinha que ser dourado, São José tinha que ter uma cor de roupa determinada, não podia mudar.

Cazzo – É verdade.

Luis Parras – Giotto é o primeiro cara a fazer um céu azul, o primeiro a fazer o santo do tamanho do ser humano, com feições humanas, isso, claro que ele tava ali influenciado pelo início de várias transformações, de movimentos sociais que aparecem, a Contra-Reforma, então, esses artistas que conseguem refletir na sua arte o seu tempo, a sua época, esses eu acho fundamentais. Outro cara massa é o Diego de Velásquez, viveu a ditadura espanhola, esteve lá dentro, então, por exemplo, ele era o artista oficial do Estado, ele pinta o Rei com cara de bobo, que é exatamente a cara que aquele indivíduo tinha, cara de bobo. Ele pega um Cardeal lá, não lembro o nome, ele faz o Cardeal com cara de inquisidor mesmo, ele dá uma alma humana às pinturas, a coisa do Barroco mesmo...

Cazzo – E depois dos Impressionistas?

Luis Parras – Sinceramente, depois dos Impressionistas, só a vanguarda russa é que me encanta. Essa vanguarda é que vai influenciar o Modernismo brasileiro, né? Então, o Mário Pedrosa dizia que o que aconteceu nas Artes Plásticas na Semana de Arte Moderna de 22 não tem nada a ver com o movimento modernista europeu. Ainda bem que não tinha. Mas do ponto de vista do estilo, eles não estavam fazendo cubismo, nada disso, faziam um realismo expressionista, que é coisa do século XIX. Tem aquele quadro da Tarsila do Amaral, que tem um sapo e um cacto... aquilo poderia ser no México!

Cazzo - Hahahahahahahaha...

Luis Parras – Podia ser na África! Acho que o modernismo na História das Artes Plásticas no Brasil acontece já com os Concretistas. Que também não foi um movimento isolado. Claro que o Oswald de Andrade é um monstro, ele cria o Movimento Antropofágico que é o que acaba desenhando muito do nosso imaginário cultural e vai influenciar esses Concretistas.

Cazzo – Oswald é bem um cara que retratou o momento dele.

Luis Parras – Exatamente. Fundamental.

Cazzo – Mas você tem uma birra com Miró, né, Parras?

Luis Parras – Cara, eu não gosto de Miró, não gosto de Picasso, não gosto de Salvador Dali. Kandinski eu tendo a gostar um pouco mais. Arte é um troço muito subjetivo, cara. Fazer crítica de arte é muito subjetivo. Eu sinto falta de bons críticos de arte no Brasil. Na Bahia nem se fala, aqui não tem crítica de arte. Então, a crítica de arte é uma parada muito pessoal, não tem nada de racional ali.

Cazzo – Tem um cara que eu não consigo entender, que eu acho uma merda, é o Pollock. Porra, aquilo me irrita, bicho. O cara cospe tinta na tela e quer me obrigar a achar que tem alguma coisa ali.

Luis Parras – Pra você ver, né?

Cazzo – Você acompanha as Artes Plásticas aqui na Bahia?

Luis Parras – Acompanho.

Cazzo – Me diz o que tem de legal aqui. O que você conhece, que você considera bom.

Luis Parras – Salvador está fora do circuito de arte contemporânea nacional. Consequentemente, fora do internacional também... brother! [chamando o garçom] uma seletinha, por gentileza! Sim, então, a cidade aqui como um todo tá muito pra trás, Recife tá muito à frente da gente.

Cazzo – Na maioria das vezes é assim mesmo. Recife tá sempre à frente.
"O meio artístico na Bahia é muito bairrista, Salvador é uma cidade bairrista, tem uma dificuldade tremenda de aceitar o que vem de fora, exacerba demais o que é daqui, acha sempre que o que a gente faz é melhor, acho complicado isso. A gente deixa de dialogar com outras pessoas."

Luis Parras – Verdade. Mas não existe um meio de arte visual em Salvador. O que existem são guetos. Ninguém se junta. Os artistas que aqui produzem estão isolados mesmo. Tem o Marepe, tem gente que fala que ele não entende nada, tudo bem, pode ser, mas só que Marepe, no seu silêncio, na sua humildade, é hoje um dos artistas brasileiros mais conhecidos internacionalmente, a obra dele reflete o nosso país, o nosso Recôncavo. Tem um trabalho dele que foi parar no Museu de Veneza, ou seja, alguma coisa tem ali. Gosto do trabalho dele. Tem um grupo chamado GIA (Grupo de Interferência Ambiental), uma galera que tá bombando, tem um trabalho legal, foram expor na Espanha. Estão inseridos no meio nacional. Eu gosto também da Virgínia Medeiros, que é pouco conhecida aqui, mas é uma artista importante, ela faz pesquisa com os travestis, viveu a realidade, não é uma coisa inspirada na vida dos travestis. Gosto do Marcondes Dourado, que pode não ser considerado um artista plástico, é um cara mais multimídia.

Cazzo – Você citou aí o pessoal do GIA. Você tem uma relação muito próxima com eles, né?

Luis Parras – Eu fiz parte do GIA. Fui um dos fundadores do GIA. O CUCA da UNE tem um programa chamado PIA (Programa de Interferência Ambiental). A semelhança no nome não é à toa. Um grupo de estudantes de Belas Artes foi levado pra São Paulo pra fazer intervenção num encontro de estudantes lá. Voltando desse encontro, resolveram que seria bacana trabalhar coletivamente e assim montaram o GIA, que vem depois do PIA. E eu fico muito feliz de ter participado dessa história.

Cazzo – De pau pra cacete, e o ditado vem a calhar porque eu quero saber, Parras, como é sua relação com a viadagem? Tem gente que não gosta desse termo” viadagem”... Você vê com bons olhos o Movimento Gay?

Luis Parras – Rapaz, eu sempre tive o movimento gay como referência para os outros movimentos sociais, de alguma forma. Eu admiro muito. No momento em que os gays estavam tomando porrada na rua, sendo brutalmente assassinados, e por exemplo, eu participei, em São Paulo, de uma geração muito preconceituosa, uma galera punk, que batia em gays. Eu cresci ouvindo a galera dizer que gay tinha que levar porrada. Não me influenciaram porque haviam gays em minha família e a gente aceitava tranquilamente. Quando tava havendo uma leva de assassinato de gays, eles resolveram fazer uma passeata gay, começou pequenininho, até levaram porrada, a coisa foi crescendo, e hoje é um fenômeno turístico! Isso foi ótimo! Ao invés de se esconderem, eles decidiram gritar! Muito semelhante ao movimento dos latinos nos Estados Unidos, anos atrás, que decidiram se mostrar pra eles verem quem que faz lá o serviço sujo do estadunidense, quem que lava as latrinas, os pratos, varre o chão...

Cazzo – O Mott disse que acha importante haver cotas para gays.

Parras – Aí eu discordo. Nesse ponto eu discordo. [chamando o garçom] Ô, velho, trás uma cerveja, aí, cara!

Cazzo – E como que vai provar que é gay, bicho, pra ser contemplado pela cota? “Enfia aqui no meu cu.” Hahahahahahahahahaha...

Luis Parras – “Bota um pau aí pra você ver se eu não chupo.” Hahahahahahahaha...

Cazzo – Hahahahahahaaha... que onda da porra!

Luis Parras – Isso é uma babaquice tremenda.

Cazzo – Me dê a fórmula, Parras, para as vias práticas do comunismo.

Luis Parras – Na real, o comunismo, o socialismo, o anarquismo, começa tudo lá em Lutero, os anabatistas! Esse pensamento se desenvolve lá e culmina na teoria de Marx e Engels. O problema é que o mundo hoje é capitalista. Eu penso que o comunismo é um troço fora de moda, na Universidade pouco se fala em Marx, as pessoas não gostam. Dizem que é velho. Mas só tem duas opções pra mudar: ou a gente faz a revolução ou a gente espera o cataclisma. Porque o capitalismo é suicida. E a questão é a liberdade, assim como a gente tem aqui a liberdade de comprar um tênis, a Nike tem a liberdade de gastar 1 quadrilhão de dólares pra vender a porra do tênis. Não tem liberdade nenhuma nisso. A liberdade é muito traiçoeira. Também não queremos uma ditadura, muito menos a do proletariado. Hoje não tem como. A Social-Democracia no nosso país é uma mentira, é muito fácil ser social-democrata na Finlândia, na Noruega, esses filhos da puta roubaram o mundo inteiro.

Cazzo – O Governo Lula é um passo pra algo parecido com Socialismo ou Comunismo?

Luis Parras – Que nada. Não é não. É uma tentativa de Social-Democracia. O Niemeyer disse assim: “O que o Lula quer fazer é melhorar o capitalismo. Só que isso é impossível.”

Cazzo – Tem uma tendência agora que não se diz nem capitalista nem comunista, são os quilombistas. Você já ouviu falar nisso?

Luis Parras – Não. Mas eu me considero Marxista-Macumbista.

Cazzo - Hahaahhahahahahahaha...

Luis Parras – Ah, e sou também Marxista Pós-Moderno. Isso arrepia os comunistas, né? Hahahahaha ... isso é uma besteira, o Pós-Modernismo é só um estágio avançado do Modernismo. Que besteira.

Cazzo – Por falar em Pós-Modernismo, vamos falar de coisa séria: Psirico.

Luis Parras – Hahahaha...

Paula – Querido, eu tive o prazer e a glória, no carnaval desse ano, de, por acaso, chegar no Campo Grande e estar passando o Psirico. Cara, “Ela é toda boa!” A energia da galera! Que que isso, gente? “Toda Boa!” É bom, muito melhor do que “Tchuco-tchuco gostoso”, vamo combinar! É outra coisa.

Cazzo - E isso é também um problema terrível, eu faço provocativamente a comparação, que, assim, na música erudita muita gente, sem conhecimento, acaba achando que é tudo uma coisa só, ou seja, botam no mesmo patamar Wagner e Debussy. A mesma coisa acontece no pagode aqui, botam tudo no mesmo plano e aí não conseguem ver que um ou outro se diferencia, é o caso do Psirico.

Luis Parras – Eu gosto do Psirico.

Paula – É muito mais leve, e me interessa pela mensagem que vai levar, como que as pessoas absorvem isso, porque o “Tchuco-tchuco gostoso” tem uma proposição violenta e “Toda Boa” não tem essa proposição.

Luis Parras – Cara, eu vi uma entrevista que tu fez com o James Martins, ele falando da questão estética do Psirico, a coisa da guitarra... cara, os caras são da linha do Tom Zé, velho! Eles pegam e botam aquele troço no meio da música: uón uón uón uón...
"O artista não se faz só de arte, ele precisa do contato com o mundo."

Cazzo – O megafone.

Luis Parras – Porra, aquilo é massa. Interessante. O engessamento de determinadas manifestações, às vezes, é prejudicial, pode se tornar folclórico, regional, sei lá. [chama o garçom com a mão gesticulando o formato de uma garrafa de cerveja] Da mesma maneira, o diálogo com outras estéticas é importante, mas como a gente vive numa sociedade capitalista, as coisas tendem a passar rápido, e aquilo pode se perder, é um negócio complicado...

Paula – É a estética do privilégio.

Luis Parras – A sociedade nunca vai mudar enquanto houver privilégio.

Paula – Ruim, esteticamente, é Chiclete com Banana, Asa de Águia. Não tem nada.

Cazzo – Tu viu a explicação de Tom Zé sobre o funk carioca, a música “Atoladinha”?
TOM ZÉ EXPLICA A CANÇÃO "ATOLADINHA"

Paula – O funk carioca é bacana, cara, tem uma coisa que só tem lá: é o atabaque, que vem candomblé.
Luis Parras – O jazz passou pelo mesmo processo, começaram a crescer os prostíbulos em New Orleans, os caras faziam um som do caralho, e isso chegou nos salões, na medida que se introduz o piano. Aí é que os brancos elitizam o jazz. Por que tem gente que olha o jazz e fala que é isso e aquilo, mas ele começou assim, porra, igual o pagode, o samba...

Cazzo – E sua relação com as drogas, Parras?

Luis Parras – Muito boa. Olha, eu sou a favor da liberação da Cannabis Sativa em nosso país. Mas minha relação com as drogas é muito boa, sim, saudável, inclusive.

Cazzo – Como é a história da casca da laranja?

Paula – Drogas são drogas.

Cazzo – Mas é coisa pra bater onda, né isso?

Luis Parras – É o seguinte: uma vez um amigo meu espirrou o líquido da casca de laranja no olho. Eu achei que ele tava maluco, mas ele disse que no interior é muito comum pra clarear as vistas. E não é que é verdade, rapaz? É bom mesmo, é gostoso, bate uma onda. Igual o rapé. Quando você cheira o rapé, tu não fica fazendo insanidades, bate uma onda... essa paranóia de drogas legais e ilegais é uma besteira. As drogas podem ser liberadas à medida que a sociedade avança. Na Áustria, o cara é viciado, o Estado banca a droga do cara, cocaína, inclusive. O cara lá tem uma cota que pode usar a droga, acho que uma vez por semana ele vai num posto médico pra pegar a droga, mas , quando passa disso o Estado pega o cara e coloca numa clínica, é outra história. Mas nossa saúde tá avançando, cara, o SUS avançou, hoje aqui se admite o uso de fitoterápicos, que é um avanço tremendo, né? [se dirigindo ao garçom] Mais uma seleta, meu querido! E uma cerveja! A questão das drogas é questão de saúde pública. Usar ou não, como estamos numa sociedade capitalista, é questão de liberdade. Num país comunista... acender um baseado em Cuba, tu vai preso, é deportado na hora.

Paula – Eu não sei como é que o Glauber Rocha passou tanto tempo em Cuba sem fumar um baseado.

Luis Parras – O Glauber, na verdade, era contra as drogas, só muito depois é que ele começa a fumar mesmo. Teve uma vez, aquele assistente dele, Duarte, eu acho, pensou que seria bom pra o Glauber fumar um baseado, pra ele viajar mais, né? Então, esse cara deu um baseado pra Glauber, ele se trancou no quarto, não sei quanto tempo depois ele volta e o cara pergunta: “E aí, Glauber, fumou?” O Glauber responde: “Porra, toquei uma punheta.”

Todos na mesa – Hahahahahahahahahahahaha...

Cazzo – E Glauber era um gênio, Parras?

Luis Parras – Eu não acredito em gênio. Eu gosto do Glauber. Mas eu não consegui assistir aquele filme dele, rapaz, o urbano... que tem o Paulo Autran... como é o nome? É...

Cazzo – “Terra em Transe”.

Luis Parras – Eu dormi assistindo esse filme. Já o “Deus e o Diabo na Terra do Sol” eu acho fantástico.

Paula – É porque os filmes do Glauber, a maioria deles, são datados, cara, é um retrato da época em que se passam, entende? Então, pra assistir, tem que estar no clima daquele momento e tal...

Cazzo – Tem um curta que ele fez no velório do Di Cavalcanti... é muito foda! Muito bom!

Paula – Cara, é lindo! Eu choro...

Luis Parras – Cara, é bom mermo! Chama “Di Glauber”. Que negócio doido aquilo. É que eles tinham feito um acordo, que era assim: se o Glauber morresse antes, o Di Cavalcanti faria uma tela em homenagem ao Glauber, e se o Di morresse antes, o Glauber faria um filme.

Cazzo – E deu uma putaria no dia porque o Glauber começa a filmar, sem a permissão da família, vai lá no caixão, filma a cara do Di Cavalcanti, fecha no rosto do cara morto lá, a filha do defunto virou a porra, tirou Glauber e o pessoal que tava com de lá do velório...
DI GLAUBER [GLAUBER ROCHA] - TRECHO

Luis Parras – Muita onda esse filme, bicho.

Cazzo – E dos cineastas vivos de quem tu gosta, Parras?

Garçom – Vai mais uma cerveja, aí?

Luis Parras – E uma seletinha, né? Dos vivos eu gosto do Edgard Navarro. Tive o prazer de trabalhar em “Eu me lembro”. Tem o Nelson Pereira dos Santos, tem o Geraldo Sarno.

Cazzo – Então me fala um cineasta consagrado que você não gosta.

Luis Parras – O Padilha.

Cazzo – Você não gosta do “Tropa de Elite”?

Luis Parras – Gosto. Adorei o filme. Eu acho que é muito fácil você hoje em dia criar um mito. Porque esse negócio, a publicidade, pra mim, sinceramente, a coisa da pirataria do filme, aquilo foi um golpe, uma jogada de marketing, que nada, cara, como que some o cd com o filme, não existe, eu sou ingênuo, mas não sou idiota, tá bom?!

Cazzo – E “Ó Paí Ó”, bicho. Aquilo é uma desgraça! Você gosta daquilo?

Luis Parras – Tu não gosta, cara? Eu gosto.

Cazzo – Um livro que mudou a sua vida, Parras? Ou um autor?

Luis Parras – Rapaz, a minha frustração é não ser escritor, cara. Eu escrevo algumas coisas, mas não mostro a ninguém, eu deixou guardado...

Paula – Muito mal guardado, às vezes, né?

Luis Parras – É. Mas um cara que acho que foi importante em minha vida... é o Kafka, cara, é foda... muito foda... o Kafka... na verdade, eu peno que seria bom jogar o Kafka no cinema, e tem o Camus e Dostoievski, que é muito foda... um professor de estética da Faculdade, a gente ia entrar de férias... por sinal, eu num aprendi nada de estética com esse professor, até hoje num sei porra nenhuma de estética, mas tudo bem... chegou as férias, ele me indicou “Crime e Castigo”, do Dostoievski... eu li a porra do “Crime e Castigo” e, cara, esse foi o primeiro livro que eu comprei com um cheque, olha só, tu quando entra na Faculdade, tu abre uma conta, tem cheque, e a única assinatura minha num cheque foi pra pagar um livro com edição de 1914, no Brandão, que é ladrão, eu emiti um cheque que voltou, mas depois fui lá pra pagar a porra do cheque...
LUIS PARRAS E PAULA EM "SAMBINHA ANTIGO"

20 de Novembro de 2008

"Não acredito que a solução está no leque de cores."

CAZZO ENTREVISTA NELSON MACA



1) QUANDO NELSON MACA SE DEU CONTA DA COR DA SUA PRÓPRIA PELE?

Sempre me dei conta da cor da minha pele. O que acontece é que a percepção foi mudando com o tempo, determinada por vários fatores. O principal deles foi meu contato com as questões do movimento negro. Tudo isso, logicamente, dentro do contexto paranaense, primeiro na cidade em que nasci, Telêmaco Borba, depois em Curitiba, para onde me mudei aos 13 anos de idade. Como você sabe, na Capital, e muito menos no interior do meu estado natal, não temos este lado bom de Salvador que é nos bater com seus Exus em suas encruzilhadas. Sempre fui um dos pouquíssimos negros da classe, da rua, do bairro, da cidade. Em Curitiba, onde morei mais de dez anos num mesmo bairro periférico, quando muito, no ônibus super-lotado, tinha dois ou três negros das mesma poucas famílias da área. Mesmo assim, já no segundo grau, lia e começava a me interessar, me reconhecer e me localizar na questão negra. Esta foi a descoberta principal da minha vida; determina tudo que penso e faço hoje. Com ela pude formular, finalmente, uma leitura crítica de mim mesmo enquanto negro - desde meu nascimento até hoje. Muitas das questões do meu passado começaram a tomar formato definido, não só nas respostas que encontro, mas também, e primeiramente, na maneira como reorganizei as perguntas, meu auto-questionamento. Por exemplo: sempre formei par na escola com minha irmã dois anos mais nova que eu, na dança, no teatro, etc. Logicamente queria estar com as princesinhas brancas da escola, mas não rolava. O questionamento que fazia, já percebendo, embora instintivamente, o conflito da exclusão na flor de meus sete, oito anos era em torno da questão estética. E assim foi até o início de minha adolescência. Veja só, minha indagação, apesar de infantil, já estava condicionada ideologicamente.
Minha inquietação fundava-se no “universalismo” euro-centrado que determinam a identidade nacional. Minha resposta era “fico só porque sou feio”. Hoje, refazendo a pergunta a partir da diversidade, não querendo mais saber por que eu me excluía, mas sim por que me excluíam, respondo: “me excluíam porque eu era preto”.
Por isso e outros pontos sempre tive consciência de minha cor, porém não tinha da ideologia e práticas racistas que estava inserido. As coisas não mudaram muito, porém, agora, vivo o problema colocado de maneira objetiva e posso reagir. E posso militar para que outros também enxerguem e possam reagir contra este Brasil imundo que nos cabe.

2) QUAIS AS SUAS REFERÊNCIAS NA LUTA ANTI-RACISMO? E COMO É A SUA RELAÇÃO COM O MOVIMENTO NEGRO? FAZ PARTE DE ALGUMA ENTIDADE?

São muitas as referências. Nossa! Não vou falar das grandes referências mundiais, pois, por serem mundiais, não precisam ser verbalizadas, estão evidentes na respostas seguintes. Vou falar das referências mais íntimas, cotidianas.
A primeira delas é minha irmã mais velha, Marly Silveira, hoje professora da UNB. Os primeiros livrinhos sobre Zumbi; vê-la fundando o grupo de mulheres 8 de Março de Curitiba ao lado da Alice Ruiz, da Berenice, vê-la compondo o grupo Raça e Classe do PT de Brasília, quando conheci o Édio Silva, a Mariaugusta e muita gente que está atuando como nunca. Deste grupo, eu tinha referências diretas de Florestan Fernandez, grandes textos que me deixaram muito esperto então. Ao mesmo tempo que entrava no curso de Letras da UFPR, conheci a Adalzira, costureira que coordenava o GRUCON – Grupo de União e Consciência Negra, o primeiro e único grupo do movimento negro “mais clássico” que participei efetivamente em pleno centenário da abolição. Já em Salvador, conheci pessoas que marcariam profundamente minha militância: o primeiro e maior de todos eles deles foi o cine-clubista Luís Orlando da Silva. Estive com ele até seus momentos finais; fui mais dedicado que um filho. Nunca sofri tanto uma perda. Minha aproximação mais recente com alguém realmente forte está sendo com o Professor e ativistas cubano Carlos Moore. Com esses dois conheci, efetivamente, o movimento negro que me interessa: nem marxista, nem capitalista. Na linha de Kwame Nkrumah, tô aprendendo sobre as razões profundas do panafricanismo. Na linha direta de Abdias de Nascimento, comecei a entender e, agora, a praticar o quilombismo. Esses são, ao lado de meu grande professor de literatura Jorge de Souza Araujo, as únicas pessoas que até hoje chamei de mestres. Carlos Moore chegou em minha vida como uma dádiva, corroendo todos os mitos que faziam morada em mim, principalmente o de acreditar que o Socialismo poderia ter as respostas para a superação dos conflitos raciais. Ele me fez enxergar, também, nítida e profundamente, que o continente africano está infestado de negros traidores do projeto panafricanista! Gostaria de acrescentar ainda a lista desses ativistas baianos meus irmãos Léo Ornelas e Hamilton Borges Walê. Referências ao lado. Hamilton Borges é um trovão africano, uma espada afiada que bota os racistas e os afro-convenientes em pânico. O matriarcado refeito nos trouxe Luiza Bairros, Vilma Reis, Olívia Santana, Makota Valdina Pinto, Ceres Santos, todas amigas e companheiras que lutam, diariamente, contra a exclusão e a violação povo negro, aqui ou em qualquer lugar. A entidade que faço parte é a Blackitude: Vozes Negras da Bahia.

3) ALI KAMEL, DIRETOR DE JORNALISMO DA REDE GLOBO, ESCREVEU UM LIVRO EM DEFESA DA EMISSORA DIZENDO NÃO SER RACISTA? QUAL SUA OPINIÃO?
Não conheço um livro dele explicitamente em defesa da Rede Globo. Aliás, a Rede Globo não tem defesa possível, ela é a própria encarnação do perverso sistema brasileiro seja em que campo for, não só racial, mas social, cultura e o escambau. Como dar credibilidade a uma empresa gigante de telecomunicações que teve no regime militar seu principal aliado para chegar onde chegou? Que credibilidade tem um chefão de jornalismo da Rede Globo, para entrar numa discussão crítica sobre racismo que não conhece minimamente o assunto a não ser enquanto gancho para polemizar com ativistas justamente no momento que a ação organizada do movimento obriga a introdução de projetos e políticas públicas que introduzem mudanças profundas nos conceitos, leis e execuções oficiais referentes a questão racial brasileira. Quando, pela primeira vez um presidente da república admite que o Brasil é uma nação Negra, ou seja, que a maioria de sua o população é negra? Que atenção devemos dar à defesa angustiada que Ali Kamel, a exemplo de Caetano Veloso e outros, fazem das regalias que, historicamente, os privilegia. Apesar da defesa que fazem de seus feudos, fundados na descoberta, estabelecidos na colonização e fortalecidos na república, o movimento negro também acumula vitórias históricas como a introdução de políticas de reparação no país. A lei 10.639 e as cotas de vagas preferenciais para estudantes negros nas universidades públicas são fatos incontestáveis de que o Brasil é e sempre foi racista! Só que agora, finalmente, nós também entramos na GRANDE POLÍTICA!
Gastamos séculos de quilombagem, de abolicionismos, de imprensa negra, de movimento da negritude... Quando, finalmente, colocamos a questão racial brasileira de maneira objetiva, não cordial e reivindicatória, aparece um monte de babacas, para dizer que estamos querendo partir o Brasil ao meio! Que estamos inventando o racismo, ou melhor, importando-o dos EUA. Peraí!Minha opinião? Devemos ler Aimé Césaire, Frantz Fanon, Abdias do Nascimento, Carlos Moore... e mandar o Ali Kamel a puta que o pariu!Essa é a minha opinião!

4) O QUE É O BLACKITUDE?

Blackitude: Vozes Negras da Bahia é um coletivo de artistas e ativistas. Quer dizer Blacks com Atitude! Na realidade, optamos pela arte e ativismo conjugados. Somos independentes há 9 anos, mas queremos nos formalizar, para empreendermos ações também com finalidade e trabalho e renda. Nossa atuação se dá, primeiramente pelas linguagens da cultura hip hop, porém flertamos muito de perto com a literatura e o cine-clubismo. Tudo muito prático, visceral, atuante. Compreendemos movimento negro como movimentos negros, com diversidades ideológicas e práticas. E assim tem que ser mesmo. Cada qual participa de outras frentes, tão diversas que vão do especismo ao jornalismo (risos). Mas não dá para explicar muito, não somos de cartilhas, teses, etc e tal, somos orgânicos. Para quem quiser conhecer, uma boa oportunidade é agora, de 21 a 24 de dezembro, quando realizaremos o evento Blackitude + Zumbi: Estratégia Quilombola. Para detalhes
www.gramaticadaira.blogspot.com ou www.blackitudezumbi.blogspot.com

5) OBAMA DECLAROU: "EU SOU MARROM". COMO ESSA FRASE SURTIU PARA VOCÊ?

Já me perguntaram isso outro dia. Tô desinformado. Não li, não ouvi, não vi essa declaração! Não sei o contexto; se dissimulado ou irônico; de desvio ou caminho!Engraçado, né, tá todo mundo querendo ver Obama cair em contradição étnica! A sua campanha optou por um discurso que não polemizasse a questão racial, para não dar sopa pro azar, não dar mole ao traíras, mas, mesmo assim, os piranhas tão aí, querendo o fígado dele, não é?
Esperar que Obama resolva o mundo é como acreditar que o Lula pode governar sem o PMDB e o tranqueira do Geddel! Chegar ao governo não é, necessariamente, chegar ao poder! Mas, como diz um amigo bem chegado meu, caso o Obama “falhe” será mais uma prova irrefutável que ele é igual a qualquer homem! A cor dos negros importa muito mais aos segregacionistas e aos racistas que a nós mesmos neste sentido. Para nós dizer-se negro é afirmação, inclusão; para eles é negação, discriminação. Esse sentido político do dizer-se negro nos interessa e nos levanta, por isso assusta Caetano Veloso e Ali Kamel. As máscaras podem, um dia, cair, não é? Pois é... Não foram os africanos que auto-denominaram negros, mas sim uma conceituação política e ideológica de fora, fruto dos interesses vários de mercadores, colonizadores, etc, que antecedem em muito, inclusive, o capítulo ibérico. Na reversão da negatividade desse conceito é que se dá a participação dos movimentos da Negritude!
No contexto em que estão colocando esta polêmica enviesada, se Obama é Marrom, Preto, Pardo, é um questionamento puramente retórico. Todos sabem que a polícia, os agentes de emprego, os diretores de novela da Globo, os lojistas do Shopping Barra, e por aí afora, sabe muito bem reconhecer um negro. Só quando negro assim se reconhece, para o vestibular com cotas por exemplo, é que o conceito perde a objetividade e o cientificismo.
O Obama, sei de fonte segura, sempre militou nas causas negras, continuou com esses contatos durante e depois da campanha. Saber onde isso vai dar, realmente, me interessa bem mais do que saber se ele se auto-determinou ou não de marrom. Tenho recebido notícias precisa sobres este diálogo. Pode ter certeza que a coisa não vai ficar na neutralidade que busca votos “universais”.Você me entende?

6) NO BRASIL, O MOVIMENTO NEGRO TEM GRANDE INFLUÊNCIA DE ÍCONES E PRÁTICAS DE LUTA ANTI-RACISMO QUE VÊM DOS ESTADOS UNIDOS. VOCÊ ACREDITA QUE COMO SE DÁ O RACISMO NO BRASIL - QUE ME PARECE DIFERENTE DO RACISMO NOS ESTADOS UNIDOS - ESSAS ARMAS SÃO MESMO EFICIENTES?

O panafricanismo, ideologia e política mais consistente da África crítica contemporânea, foi idealizado fora do continente africano. Evidentemente, cada sociedade tem sua dinâmica, mas ninguém pergunta, por exemplo, se as universidades brasileiras deveriam ser originais. Se a polícia brasileira deveria ter identidade própria. Na realidade, a possibilidade de os ânimos se acirrarem o Brasil causa um verdadeiro frisson na população, logicamente e principalmente, naqueles que têm a perder com o enfrentamento declarado.
As ideologias da democracia racial e do branqueamento são duas construções sólidas de nossos quinhentos anos de história de supremacia branca. Mecanismos que anulam todo e qualquer embrião de enfrentamento tenso ou mesmo violento no Brasil. Uma longa lavagem cerebral que engendra falácias com as visões clássicas de Silvio Romero e Gilberto Freire - com suas teorias do mulatismo cordial, que preparam uma série de mitos de convivências harmoniosas entre as diferentes etnias que compõem o país. Uma espécie de achamento brasileiro de uma fórmula mágica de convivência com escravidão, segregacionismo, discriminação e racismo sem enfrentamentos violentos.
Poxa, ainda hoje não temos uma história “instituída” crítica.
Mesmo sobre Zumbi fala-se muito pouco no sistema educacional. A revolta dos Malês é assunto de eruditos. Livros monumentais sobre esse levante estão nas gavetas enquanto a Guerra de Tróia domina o território oficial.
Para mim, racismo é racismo em qualquer lugar. Quando falo deste assunto, não estou falando de um brasileiro, de um haitiano ou de um colombiano. Nem mesmo de um africano. Para mim, um negro é um negro seja aonde for. Não temos uma nova nação ainda desde que nosso transplante foi violento e nossa permanência para onde fomos ainda não encontrou sínteses compensatórias.
Se Homero, Platão, Bach,
Bethoven, John Lennon, Gandhi, Madre Tereza de Calcutá, Che Guevara se internacionalizam como paradigmas comportamentais sem fronteiras, por que não Malcolm X, Martin Luther King, Alice Walker, Richard Wright, Miles Daves, Diana Ross, Ângela Daves? Você já ouviu alguém perguntar, tão enfaticamente como fazem na questão racial, se o catolicismo tem a ver com o Brasil? Se o Papai Noel representa os trópicos? No fundo mesmo, não se trata de, simplesmente, saber se o modelo americano nos serve ou não. Primeiro porque o que se pergunta sempre é se o “modelo negro” de enfrentamento do racismo norte-americano nos serve ou não. Na real mesmo, penso que o que paira na mentalidade local é o medo de negros se revoltarem e partirem pras vias de fato.
Outra questão de fundo nesta discussão é subestimar o movimento e intelectuais negros brasileiros. Será que, com séculos de lutas ininterruptas, ainda não temos discernimento do que nos serve ou não? Será que precisamos que um Ali Kamel, um Caetano Veloso, um Antonio Risério, um Gilberto Gil venha nos alertar das virtudes do mulato? Não, claro que não, um Abdias do Nascimento, uma Lélia Gonzales bota toda essa cordialidade nativa interesseira e espetaculosa no bolso. Temos um pensamento crítico, só na Bahia, temos Luiza Bairros, Samuel Vida e tantas outras pessoas que ocupam a vanguarda do pensamento racial. Mas é claro que também existe uma América Negra que não nos serve e não nos interessa! Assim como existe uma África Negra que abominamos. Não se pode jogar a criança junto com a água suja, já dizia a minha avó.

7) QUANDO GILBERTO FREYRE FALA DO LEQUE DE CORES QUE EXISTE NO BRASIL VOCÊ VÊ ESSA DECLARAÇÃO COM BONS OLHOS OU ACREDITA QUE HÁ, DECERTO, UM RACISMO VELADO NESSA DECLARAÇÃO?

Acho que nas questões anteriores já respondi efetivamente isso. Não acredito que a solução está no leque de cores. Ao contrário, penso que isso ajuda a ocultar o problema com uma retórica assustadoramente durável. Existe uma reunião de traços, um fenótipo, negro que nos execra e nos condena. Não se trata simplesmente de cor mais clara ou mais escura de pele. Racismo não é simplesmente uma ideologia relativamente recente como querem alguns. São milhares de anos de construção lenta e meticulosa das desigualdades raciais! Racismo é um construto histórico. É preciso ler e ouvir atentamente Carlos Moore, um dos intelectuais e ativistas que melhor discute a questão hoje. Ele mora em Salvador!

8) QUAL A SUA OPINIÃO SOBRE A PROPOSTA DO MV BILL DE SE CRIAR UM PARTIDO DE NEGROS?

O próprio MV Bill já desencanou disso. Já disse, publicamente, que ele e o Celso Athaíde tavam “viajando”. Na época, estando em Salvador, o Celso me explicou a construção do partido, para eu ser, juntamente com outras pessoas, uma espécie de ponte em Salvador. Já então achei uma besteira, algo vertical, de cima pra baixo. Contando com um abaixo assinado que constava nomes de figurões e artistas como Leci Brandão e Ronaldinho Fenômeno. Com 13 anos de idade eu já tinha maturidade para não levar a sério um partido que depende da assinatura do Ronaldinho! Imagine hoje. Mas outras pessoas têm falado da necessidade de nós, os negros, termos uma espécie de organização política que nos represente com mais eficácia e particularidade. Hoje sei, objetivamente, que não sou nem socialista nem capitalista; sou quilombista! Não acredito mais que nenhum dos partidos em ação possam me representar efetivamente. Com não sou partidário do voto branco ou nulo, tenho escolhido candidatos negros com perfil individual de credibilidade e que se afinam com os partidos menos piores. Enfim, embora muito dificilmente participasse de um partido puxado por MV Bill, também acredito que devemos ter nossa própria sigla. Tenho ouvido uma pessoa falar dessa possibilidade há anos. Confesso que sempre ouço com muita atenção. Se um dia ele encabeçar uma frente, paro pra ouvir e pago pra ver. Seu nome? Samuel Vida!

9) SARTRE FALOU EM RACISMO ÀS AVESSAS, QUANDO VIU O ACIRRAMENTO DA LUTA ANTI-RACISMO NOS ESTADOS UNIDOS. VOCÊ TEME QUE COMECE A SURGIR, HOJE, ESSE RACISMO CITADO POR SARTRE?

Pra ser bem sincero, também não li isso de Sartre. Ao contrário, sei de um Sartre fundamental para a divulgação do movimento da Negritude de Aimé Césaire e Leopold Senghor. O Sartre de Orfeu Negro. E também de um Sartre que afirma que nem toda discriminação baseia-se no fenótipo como na questão da pele negra, nossa marca indelével. Nego-me, terminantemente, em acreditar em racismo ao contrário. Acho isso de um superficialismo surpreendente. Mas pegajoso! Argumentação fácil para os reacionários. Hoje em dia, quando ouço acusarem o Ilê Aiyê de “racista ao contrário” nem irado fico mais; sinto um certo cansaço. Temer é brincadeira, né? Eu temo andar de bobeira à noite. De um lado a polícia nos “protegendo” dos bandidos... Mas quem nos “protege” da polícia?É impossível se vingar de tantas atrocidades que sofremos milenarmente.
Nem em mil anos conseguiríamos os requintes da KKK, dos senhores de engenho, dos libatas. Depois da Arca de Noé e do Navio Negreiro, fica difícil competir com o ocidente, no bem ou no mal. Esse medo de racismo às avessas, para mim, tem outro nome e lógica: chama-se medo de “justiça histórica”. Um caso bem interessante tá acontecendo em Cuba. Lá também a elite branca anda com medo da negrada. Apesar dos cinqüenta anos do processo revolucionário, até hoje os movimentos sociais negros são reprimidos. Seus principais pensadores e ativistas vivos estão no exílio, presos ou internados em sanatórios. Muitos morreram brutalmente em “casa” ou esquecidos no “exterior”. Como eu disse antes, o negro é negro em qualquer lugar: desprezado nos regimes socialistas e/ou capitalistas. Mas, por favor, não vamos confundir os intelectuais e militantes negros cubanos com aquela corja de ricaços ultra-racistas que fugiram para Miame Beach e outros paraísos.

10) COMO VAI O NEGRO NA TV BRASILEIRA, MACA? E COM A TV DIGITAL O MOVIMENTO NEGRO TENDE GANHAR MAIOR VISIBILIDADE?

Tem negro na TV brasileira? Ou melhor, dá para um negro continuar sendo negro na TV brasileira? Nesse momento não consigo me lembrar de nada de revolucionário que pudesse me orgulhar de citar! Vou pensar mais, devo estar sendo injusto... se lembrar, volto...

11) POR FALAR EM TV, ALGUNS MEMBROS DO MOVIMENTO NEGRO ATACARAM O ATOR MILTON GONÇALVES PELO PAPEL QUE ELE FAZ NA NOVELA A FAVORITA - O DEPUTADO CORRUPTO. COMO VOCÊ VÊ ESSA POLÊMICA?
Isso é engraçado, né? Primeiro porque trata-se de uma ficção e, por mais ideológica que seja, um ator é um ator. Eu, por exemplo, caso tivesse mais interesse por essas polêmicas novelísticas, começaria discutindo a necessidade de revisão de nossa literatura dramática. Se é para procurar um culpado, devemos ir mais fundo: quem transmite a novela? quem anuncia no horário? quem seleciona o elenco? quem escreve o roteiro? quem aceita os papéis? Mas aí eu teria que fazer o mesmo para o cinema, para os cursos de literatura, etc e tal. Realmente, ser político é complexo. Por menos que isso, dizem que somos radicais e que fazemos racismo ao contrário. Mas, voltando ao assunto, deixo duas questões, pra tentar complicar ainda mais essa demanda:
- Existiu ou não existiu um político bandido chamado Celso Pita?
- Por que aparecem poucos “negros bons” não estereotipados?

12) EU POSSUO UMA CAMISA EM QUE NELA SE ESCREVE: "100% PARDO". HÁ RACISMO VELADO NESSA CAMISA?

Não! Se é autodeterminação! Racismo não é um conceito abstrato, mas sim uma ação engendrada pelo preconceito.
Não está objetivo para mim o teor da sua pergunta. Fiquei na dúvida se tem a intenção de ser dúbia ou irônica. Perguntar ou afirmar! De toda forma, na realidade, só quem pode respondê-la é você! Uma vez ouvi uma coisa que me marcou para sempre, mesmo vindo de uma pessoa arrogante e racista e se dirigindo a mim: o escravo pergunta “quem sou eu”; o homem livre diz “quem é você”! Enfim: enquanto pensar e agir como penso e ajo hoje, jamais usarei uma camisa dessa. Conheço pessoas que usam camisa com o dizer “100% Mestiço”. Já achava feio e confuso; agora “pardo” é pra acabar, né? (risos). Uso várias camisetas escritas “Blackitude”: também autodeterminação! Para alguns, pouco objetiva. Para outros, muito gringa. Uns não sabem se é afirmação ou ironia. O mundo é um muro de dois lados: o de dentro e o de fora! Todo o resto depende de que lado você está!

13 de Outubro de 2008

"Eu conto as coisa aqui ninguém credita, pensa que é mentira..."

CAZZO ENTREVISTA SEU ROCHA

As fotos: Adriana Francisca
Certa vez, de manhã, Seu Rocha olhou pra mim e perguntou: “Que cara de sono é essa, rapaz? Acordou agora foi?” Eu tinha acabado de acordar.
Pois bem, aí está, em baba de gente que enxerga se engana quem pensa que Seu Rocha é cego de todo. Nem tanto. Cego desde menino, Seu Rocha assusta pela lucidez no alto de seus mais de 80 anos de idade. Assusta também pela sinceridade às vezes – quase sempre – ácida, porque não mede as palavras, seja pra elogiar, seja pra criticar. Pai de um monte de filhos, Seu Rocha é o conhecido “Ceguinho” no Calafate, que se entoca no barracão, de manhã cedo, pra distração diária de fazer vassouras – vassouras essas que contam boa parte de sua história cheia de histórias: o encontro com o Diabo, a mulher da trouxa que lhe atravessou o caminho, a Mãe das Águas, o banho de rio que virou a sua vida.
Saindo do quarto, uma noite, Seu Rocha reclamou: “Quem acendeu a luz da sala? Apaga essa luz.” Não me contive: “Como o senhor sabe que a luz tá acesa?” Ele - sorrindo o sorriso do sábio, que sorri só com um lábio – respondeu: “O pássaro preto na gaiola começou a cantar...”
“O pior cego...”
é aquilo mesmo, não muda nada.


Seu Rocha – Rapaz, eu falo aquilo que eu passei. Agora, quem quiser que se cuide. Porque eu falo aquilo que eu passei, viu, desde quando eu nasci, o que eu venho sofrendo. E tô até hoje.


Cazzo – Sofrendo?


Seu Rocha – É. Ora, tá... tô lhe dizendo. Que eu vim no fundo foi mermo pra sofrer.


Cazzo – Deixa eu fazer uma pergunta indelicada pro senhor: qual a idade de Seu Rocha? Isso é um mistério da porra aqui...


Seu Rocha – Olhe, minha idade... eu nasci em 1926, no mês de julho.


Cazzo – Então, Seu Rocha tem 82 anos... venha cá, o senhor ficou cego com que idade?


Seu Rocha – Com 13.


Cazzo – E o senhor tem lembranças de ter visto coisas antes de ficar cego? O senhor ainda lembra?


Seu Rocha – Lembro sim. Olhe, onde eu nasci era num lugar que quem governava era Boa Nova, mas depois da revolução, Boa Nova já não governa esse lugar. É um distritozinho. Eu tinha uns 7 anos, eu ficava com meu pai, onde ele ia, ele me levava... quando a gente chegou na fazenda que pertencia a Itagi, a gente ficou por lá, lutando, lutando, numa ocasião, no São João, meu pai mandou minha mãe me arrumar pra uma festa de um candomblezeiro que tinha lá... aí, a gente foi pra lá, quando eu chego lá... sempre eu gostei de ficar destacado, num canto, assuntando as coisa, né? Eu ficava distante, pra ver as coisa que se passava naquele meio, eu ficava de cima da janela, olhando, aí eu via a dona da casa, entrou lá pra dentro e em poucas hora ela saiu com uma mutucazinha na mão, aí jogou na sala... na sala todo mundo dançando, vai lá, vem cá, aquela folia... e eu sempre com o olho, e quando eu encafifava com uma coisa eu só largava aquilo depois que eu visse o fim... hahahaha... aí, meu senhor, começou todo mundo espirrar, tudo menos eu, que tava cá de fora, tava olhando, fiscalizando as coisa, viu, porque toda vida eu fui curioso, sempre Deus me deu essa inteligência. Que diabo é isso? Todo mundo espirrando... meu pai saiu de lá, também espirrando, chegou em casa, ele espirrando... minha mãe perguntou: “ Que isso, João?” Ele disse que foi um negócio que fizeram lá e aí saiu todo mundo espirrando... eu fiquei com aquilo na cabeça... acompanhando ele... chegou um dia, nas barcaça de cacau, tava ele lá, empurrou as barcaça, uma atrás da outra, eu tô de cá, tô vendo ele lá... chamei mãe, ela olhou ele, ele disse: “Que é que você quer, mulé?” Já o olho todo vermelho... aí, quando cabou, ele quietou, pouca hora ele pulou embaixo, pegou uma picareta, caçando calango, e eu nada de ver calango ali, e tome, e tome, ele dizendo que tinha calango ali, e quem disse que queria ver mãe, ele tomou pavor a mãe... aí, ele disse: “Bora na cachoeira tomar banho?” Chegou lá, ele mandou eu ficar quieto, ele aí arrodeou, subiu por cima da cachoeira, e se jogou de lá...


Cazzo – Porra!


Seu Rocha – Eu digo: “Pronto, que morreu!” Quando eu olho, ele saiu lá embaixo, olhando pra mim, tomou o banho dele lá, fomos pra casa, lá tinha um pé de coqueiro, num pique só, ele subiu de costas...


Cazzo – Caralho!


Seu Rocha – De lá ele olhou assim pra mim, e pulou embaixo. O homem endoidou de vez... o dono da fazenda se dedicou a ele, pegaram ele, botaram um taco de bode na cabeça, quem disse? Mãe ele num podia ver, tomou uma raiva da porra, viu... vai num canto, vai no outro, nada, voltou do mermo jeito... depois, eu já com 9 anos, ele aí faleceu, mas não dentro de casa, levaram ele pra esse lugar de procurar, a notícia quando chegou foi que ele tinha morrido.


Cazzo – E morreu de que?


Seu Rocha – Maluco.


Cazzo – Porra!


Seu Rocha – Rapaz, meu caso, eu to lhe dizendo que é uma novela...


Cazzo – E depois disso? Como é que o senhor ficou cego?


Seu Rocha – Aí, ficou eu, minha mãe e meus irmão e minhas irmã... a gente foi pra outra fazenda, trabalhar, de um moço que tinha vinte filhos... um dia, eu tava lá, assuntando, de longe, tô vendo aquele movimento, a mulé da casa fez negócio lá, meio-dia, pra um bocado de gente comer, eu fiquei de cá, o pessoal, a meninada doida, de todo tamanho, jogou aquilo ali no chão, começou chamando, botou esteira de um lado e outro, meteu farinha, jogou um tonel de feijão, jogou ali dentro, tome farinha, vai lá e vem cá com a colher de pau... olhei pra um lado e outro, botou uns pedaço de carne, uma fila, foi chamando um de cada, e eu de cá... mãe tava na sala... depois de minha irmã, a mulé foi e me chamou, eu digo: "Peraí. É pra comer ali, é? Olhe, minha senhora, eu num sou porco, não, viu?!”


Cazzo – Hahahahahahaha... e o senhor não foi mesmo, não?


Seu Rocha – Quem disse que eu fui? Ela retou comigo, mandou minha mãe me bater... aí, mãe começou a chorar, o pai dela disse: “Êpa, não fale assim, não, porque o menino num tá acostumado com essas coisa.” Depois que terminaram de comer, foi todo mundo lá pra frente, tinha um gramado... eu fui me embora, saí de lá, com 10 anos já. Acompanhei um camarada, chamava Joaquim, fui pra casa dele, ele me dava roupa que era aquele pano de saco, viu, eu vestia aquele negócio, eu trabalhava pra ele... o que ele me deu foi uma mula, que os urubu já tava de perto, querendo comer, eu recebi, tratei, Deus me ajudou, deixei a bicha em pé, acabou que ele pegou a mula e fez negócio. Disse que ia me pagar... até hoje...


Cazzo – Hahahahahahaha... até hoje o senhor espera.


Seu Rocha – Me piquei pelo mundo afora. Mas infelizmente vai chegar lá no que tu me perguntou. O tal Joaquim era igual cigano, dava poucos dias, ele mandava ajeitar tudo... chegamo num lugar, tinha uns pé de braúna, olhei bem os tamanho, tinha uns quatro urubu lá em cima, a gente chegou numa casinha, parecia um poleiro, nós ficamos nessa fazenda, o dono tinha filho cuma zorra... a gente ficou lá.. quando é um dia, ele matou um boi, veio com as carne... depois que ele viajou, depois, de manhã cedinho, o dono da fazenda chegou, foi lá em casa, e eu de olho... fiquei, fiquei curioso... a gente se mudou, na outra fazenda que foi lá que eu recebi a pancada no olho, eu tava roçando, você num conhece, tem um alecrim grosso, cortei ela, que era pra tombar pra baixo, quando eu soltei, ela descambou, a lasca que subiu, eu fui olhar, bateu em meu olho, eu fui cair lá... eu tava sozinho nessa hora... saiu sangue mesmo...


Cazzo – Mas foi isso que cegou o senhor?


Seu Rocha – Não... mas, quer dizer, juntou uma coisa com a outra, né? Que já vou te contar...


Cazzo – Certo, e aí?


Seu Rocha – A gente mudou pra quase o mermo lugar, de frente, ele inventou de buscar um sal grosso pra pisar pra botar na carne... eu fui com um colega, era cinco léguas, eu ia e voltava ainda pra trabalhar... a gente desceu ladeira, subiu, desceu de novo, passou por cima da ponte, subiu a rampa, pegou areião, subiu outra empinada, a gente correndo... chegou lá o armazém num tava aberto, logo depois abriu, nós entregou bilhete ao dono, fui comprar o pão, o cigarro...


Cazzo – O senhor já fumava nessa idade?


Seu Rocha – O Joaquim que fez eu fumar, me dando o cigarro pra eu acender... mas eu pedi licença a mãe pra fumar na vista dela...


Cazzo – Continue.


Seu Rocha – Aí, rapaz, eu já com a roupa suada mermo, no mermo pique que a gente veio, voltou, que descemos, subimos ladeira, eu de cá, longe vi a água, chega tava brilhando, eu vi de cá: “Vou tomar um banho.” O outro disse: “Num vou levar defunto nas costa, não.” Eu peguei e meti o pé, fui pra dentro da água, cheguei mais no meio, a água por aqui assim, e aí baixei, bebi da água e lavei o rosto... eu sei que quando eu saí daí, rapaz, que eu olhei assim, o mundo tava assim todo vermelho. Aí, passei por cima da ponte, passei debaixo dos pé de braúna, e logo que chegou do outro lado da cancela, escureceu o mundo todo. Adormeci.


Cazzo – O senhor acordou e não tava enxergando nada?


Seu Rocha – Tava enxergando ainda. Depois da água deu aquele revertério, fiquei tonto... o Joaquim disse: “Estorporou.” Eu disse: “Seu Joaquim, eu lavei o rosto.” Ele disse: “Você tava suado? E pra que tu tomou esse banho?” Aí foi que começou, eu já tava com 12 anos. Lá vai, lá vai... daí, eu já tava vendo assim, estranho, passava os dia, eu levantava e já tava assim...


Cazzo – Assim que o senhor fala é como?


Seu Rocha – Tava sumindo a visão, vendo turvo, nublado... eu disse: "Seu Joaquim, eu tô ficando cego.” No outro dia, eu já num via um ovo por cima, já via pela metade... eu fiquei agoniado... chegou ao ponto de eu ficar preso num quarto, porque eu queria me jogar no poço embaixo, fiquei louco, ora tá... eu fiquei com vontade de me jogar pra desaparecer de uma vez... porque eu não queria aquilo, fiquei nesse quarto, preso, só com direito a comida, eu nem comia direito... tudo isso eu passei na vida... até pimenta – o povo ensinava – eu meti no olho...


Cazzo – E pra se adaptar a partir daí? Como foi?


Seu Rocha – Ah, meu filho, aí foi dano, viu?! Eu olhava pros lado, num via nada, o que eu já vi pra num tá vendo, ficar nessa prisão... eu lembro que tinha a feira em Poções, eu e Seu Joaquim – a feira em Poções sempre foi grande, toda vida. Pronto. – e ele me dizia que ia ali, e mandava eu vender as carne lá, ficava um barraqueiro de junto que me ajudava, a passar troco e tudo, era o Joaquim aparecer as carne já num tinha mais, eu vendia tudo.


Cazzo – Mesmo cego o senhor trabalhou a vida toda?


Seu Rocha – Foi. Eu fui trabalhar numa fazenda. Cuidava da fazenda. E o dono dessa fazenda, o pai era doutor, advogado. Esse era nortista, tinha fazenda em tudo que era canto, só nessa fazenda de vaca leiteira ele tinha 800, e no total tudo era 1.600. Pronto. E quando dava tudo pra parir... tinha num sei quantos vaqueiro, era muito gado... hahahaha... quando começava tirar leite era 3 da madrugada... tinha gado de raça, de cocheira... tinha de leilão, que é boi caro, quando parava de tirar leite, era 10 hora do dia... lá nessa fazenda eu é que comandava 400 trabalhador... eu que tomava conta desse povo todo, e tudo me obedecia, mesmo quando o dono num tava, que tava viajando... tinha um pai de família lá, que trabalhava, que disse que no dia que fosse embora, ele ia também... sabe porque? Por que quando eles quebrava alguma coisa, o dono mandava pagar... então, eu aliviava... criei uma amizade doida... qualquer coisa era comigo... quebrava uma enxada lá, eu mandava despachar outra, sem pagar nada, cobrar nada...


Cazzo – E de lá da fazenda o senhor foi pra onde?


Seu Rocha – Eu parti pelo mundo, andando, mermo cego, com uns facão lá, teve um dia mermo que entrei pela caatinga, tinha uma onça, que tava próxima de mim, eu senti ela perto, eu meti o pau...


Cazzo – Mas foi depois de cego que o senhor viu o Diabo?


Seu Rocha – Não. Eu vi o Diabo eu tinha 9 pra 10 anos. O Diabo não tem rabo, não, viu?!


Cazzo – E o Diabo tava onde? Fazendo o que?


Seu Rocha – Ele vinha viajando. Eu tava na porta de uma venda, um bocado de gente biritando. Eu olho pra lá, vem aquele homem com um caixote na cabeça. Ele chegou assim, chegou cá, daí, eu observei...
Fred (filho de Seu Rocha) – Diga aí, painho! Deus lhe faça feliz!


Seu Rocha – Isso...


Fred (filho de Seu Rocha) – Diga aí, painho, qual o melhor: dar o cu ou cair na pica?


Cazzo – Hahahahaha...


Seu Rocha – ...


Fred (filho de Seu Rocha) – Diga, painho: cair é melhor, que cai de lado...


Cazzo – Sim, Seu Rocha, e o tinhoso tava com um caixote na cabeça...


Seu Rocha – Pois é, rapaz... ele chegou, eu acompanhando... ele chegou, largou e botou... eu fui na venda e avisei o povo... porque ele era diferente da gente...


Cazzo – Como que ele era?


Seu Rocha – Ele era moreno, cabo-verde... só a roupa que era a merma nossa...aí, eu fui olhando, porque no Candomblé disse que tinha rabo... mas é mentira, tem rabo nenhum...

Cazzo – E como que o senhor sabia que era o Diabo? Ele disse que era o Diabo?

Seu Rocha – Não, ele conversando, ele mermo é que foi lançando que era o Diabo. Porque a gente foi conversar com ele. Nós fomos lá, conversar com ele... perguntamos: “O senhor vem de onde?” Ele disse: “Eu tô correndo o mundo.” “E qual a idade sua?” Ele disse: “Eu num sei, não.” Disse que ia pra Salvador. Os homens tudo arrodiavam ele e o caixote. Ele pegava o caixote, na moleza, os homens juntou tudo pra suspender e não suspendeu.

Cazzo – Pra suspender ele?

Seu Rocha – Suspender o caixote. Ele pegou o caixote, botou no ombro e se foi...

Cazzo – Deus me livre! Vocês não perguntaram que porra é que tinha dentro do caixote?

Seu Rocha – Hehehehehehehe... rapaz, ora tá... a gente acompanhou até a beira do rio, a gente seguiu ele, tinha lá na frente outro caixote, quando acabou, volta ele de lá... nesse mermo lugar, um dia, tá eu andando, vejo lá na frente aquela mulé, altona, escura... pulei pro outro lado, ela passou assim, eu dei benção, ela me olhou com os olhos vermelhos – você respondeu? Assim foi ela. Tava andando com um vestidão. Quando cheguei lá na frente, um camarada faz: “Venha cá. Tu viu uma maluca aí?” Eu fiz: “Maluca?” Ele disse: “ Tu sabe quem é? É a desgraça!

Cazzo – Como é, rapaz? A desgraça?

Seu Rocha – Hehehehehehehe...

Cazzo – Isso tudo antes de o senhor ficar cego?

Seu Rocha – Tudo antes de deixar de enxergar...

Cazzo – Antes de ficar cego, o senhor viu o Diabo, viu a Desgraça... ficou cego por isso, então.

Seu Rocha – Ora, e uma vez, no lado da igreja, me apareceu duas mulé, com duas trouxa.

Cazzo – Vixe Maria!

Seu Rocha - A gente perguntou o que elas tinha na sacola. Elas disse: “ Merendeira.” Depois de nós seguir elas o tempo todo, elas se picou...

Cazzo – O senhor já viu a mula sem cabeça?

Seu Rocha – Eu vi primeiro a Mãe d’água. Eu fiquei lá de longe, observava, tava ela lá quieta... eu fui chegando, ela me olhando, que quando aproximei, o cabelo batendo por cima da água... casquei fora... quando falei com Dona Judite, ela disse: “Aquela é a mãe da natureza.”

Cazzo – E a mula-sem-cabeça?

Seu Rocha – Eu vi sim. Vi até um que era cavaleiro, num tinha cabeça... eu tava sozinho, indo pra casa, com o facão do lado, olhei prum lado, pro outro, eu vi de cá, olhei pra mula, era a bicha sem cabeça, no areal, meti as unhas dos pé e da mão debaixo do areal... com pouca hora seguiu... fui andando devagarzinho...

Cazzo – E depois disso o senhor viu mais alguma coisa? O senhor não viu mais nada também, né? Não viu mais o mundo, em compensação, não viu o Diabo, nem a Desgraça, nem a mula-sem-cabeça?

Seu Rocha – Que nada... hahahahahahahahaha...

Cazzo – Antes do senhor ficar cego, o senhor era moço ainda?

Seu Rocha – Era. Conheci mulé com 25 anos.

Cazzo –Não foi frustrante pro senhor não? Nunca ter visto...

Seu Rocha – Não, foi a merma coisa... eu só trabalhava, só depois de 25 que conheci mulé...

Cazzo – O que foi a Aliança dos Cegos?

Seu Rocha – Era ali em São Gonçalo. Isso quem produziu fui eu. Eu queria botar os cego tudo pra trabalhar. Lá enchia de cego pra fazer vassoura, que eu ensinava. Os cegos tudo fazia vassoura. Era aqui. Essas casa tudo aqui era minha. Tudo aqui quem mandava era eu.

Cazzo – Que onda!

Seu Rocha – É por isso que eu me sinto até um pouco acabrunhado, quando to dentro do ônibus, que entra um cego pedindo esmola, como se não pode trabalhar... aquilo me revolta, rapaz, eu penso assim, porque, imagine, aqui tinha um bocado de cego, e esses cego foi tudo contra mim, eu trabalhava pra Odebrecht, eu fazia aquelas vassourona, aquelas de asfalto, de todo tipo, eles estiveram aqui, mandaram o engenheiro aqui pra medir, que queria levantar um prédio aqui, iam fazer uma moradia pra mim e eu ia pagando eles, mas eu achei que podia ter uma diretoria, peguei uma advogada, chamei pra ser sócia... eu morava lá no Retiro... eu sei que essa advogada foi lá falar com eles e eles disseram que eu não dava pra tomar conta não porque eu sou cego...

Cazzo – Como era sua relação com a cachaça? O senhor bebia muito?

Seu Rocha – Bebia. Bebia muito.

Cazzo – Mas o senhor bebia desde novo?

Seu Rocha – Não, foi depois de burro velho... um cunhado meu que bebia, eu acompanhei, aqui mermo, mandava eu experimentar, eu fui lá e tomei um golinho, a bicha aí envenenou...

Cazzo – Hahahahahahahahaaha... e envenenou até que idade?

Seu Rocha – Chegou ao ponto de eu pensar na vida e ver que aquilo não dava pra mim. Eu tava aqui sentado e me deu aquele repente, deu pra sair sangue de dentro do nariz, eu chamei Maria e disse pra ela jogar esse bagulho dentro da privada... é...

Cazzo – E o senhor jogou muito?

Seu Rocha – Jogo não. Quando eu via que tava perdendo eu caía logo fora, eu sabia que ia me danar, pra que ia ficar? Ficava não... e jogo de bola, eu me meti uma vez...

Cazzo – Já cego?

Seu Rocha – Cego! Ora... quando eu peguei a bola, um pisou no meu pé, eu deixei lá, mas chegou um ponto de um vir e me derrubar, aí eu num me guentei, eu digo: “Peraí. Você fez isso por que?” Daí, rapaz, eu piquei a mão nele, ele também me picou a mão, nós embolou lá mermo, pronto. Também foi só. Nunca mais. Mas eu gosto é de dominó, dominó eu gosto.

Cazzo – É verdade que o senhor era porteiro de cabaré?

Seu Rocha – É. E foi lá que eu bati num soldado, dei-lhe uma tapa, piquei uma lasca de lenha nele.

Cazzo – Porra! Como é, rapaz? Por que o senhor bateu no soldado?

Seu Rocha – Eu levei uma porrada, eu corri lá na cozinha, peguei a lasca de lenha e tampei-lhe a zorra... é... ora, tá... ele tava na frente...

Cazzo – E as putas respeitavam o senhor?

Seu Rocha – Claro.

Cazzo – O senhor não foi preso, não, né?

Seu Rocha – Pra quê?

Cazzo – Hahahahahahahahaha... porteiro de brega é ótimo! O brega antigamente era coisa séria, pra ter porteiro...

Seu Rocha – É o que eu era! Eu conto as coisa aqui ninguém credita, pensa que é mentira... eu ia entregar carta em Poções, corria cinco léguas, sozinho, cego... e quando eu era novo eu num usava bengala, não... eu andava e corria, inda brincava de Tonga...

Cazzo – De que?

Seu Rocha – De esconder...

Dona Maria (esposa de Seu Rocha) – De esconder com homem ou com mulher?

Seu Rocha – No meu tempo ninguém tomava essa ousadia de brincar com menina, não... não é essa ousadia que é hoje, vá ali na porta, tu vê, as menina tudo ouriçada...

Cazzo – O senhor fica ligado, né?

Seu Rocha – Eu tô ligado. E eu queria ver no meu tempo... eu procurei mulé foi com 25 anos, rapaz.

Cazzo – O senhor casou logo foi?

Seu Rocha – Não. Eu vivi um tanto antes. Vivi. Depois que casei.

Cazzo – Ah.

Seu Rocha – Eu vivi, sim... depois que juntei as coisa.

Cazzo – O senhor não tem medo de nada? Nem da morte?

Seu Rocha – Rapaz, eu num tenho nada pra dizer sobre essa parte... porque de qualquer maneira, queira que não queira, tem que ir. Só num quero morrer, mas se Deus quiser eu mais um tempo aqui, to aqui, mas se me chamar, o que é que eu vou fazer?

Cazzo – O senhor acha que quando morrer o senhor volta a enxergar?

Seu Rocha – Rapaz, minha mãe me levou pra um candomblezeiro, uma vez lá, me levou lá pra dar um jeito, aí ele disse: “Olhe, minha senhora, ele tem dois anjo com ele, um quer clarear, o outro num deixa. E outra: aqui eu num vou clarear, não. Ele num acredita.” Eu sou logo sincero, não acredito mermo. Eu sei que pra fazer o mal, ali é taca, viu. Mas pra fazer o bem? Não... Você acredita?

Cazzo – Não acredito em muita coisa, não. O senhor é feliz, Seu Rocha?

Seu Rocha – Dizer que eu sou feliz, eu digo que sou feliz, sim. Tem umas coisinha que chateia a gente, né?

Cazzo – O senhor se arrepende de alguma coisa nessa vida?

Seu Rocha – Olhe... pra que dizer? Eu fiz coisa que já arrependi... mas... olhe... portanto... vamos parar por aí?

Cazzo – Claro, claro...

Seu Rocha – Mas tem mais, viu? Mas vamo deixar pra outro dia...