
Nascido a 02 de novembro de 1979, Carlos Leonídio Santos Santiago Fontoura é natural de Salvador, mas é tão mais conhecido como Cazinho ou Cazzo, que às vezes até esquece o nome de batismo. O primeiro apelido, dado pela mãe, fora uma tentativa de tirar do pequenino cabeçudo a seriedade que lhe impunha o nome. Eva descartou chamá-lo de “Carlinhos” porque lhe parecia nome de frequentador de boteco; não adotou “Cacá” como apelido por ser muito comum. Por motivo que até hoje não há precisa explicação, chamou-lhe “Cazinho”. Já o apelido “Cazzo” viera muito depois, criado pelo próprio, como uma forma de as pessoas lhe levarem a sério.
Parte do que define a personalidade de Cazzo Fontoura ele mesmo escreveu: “poeta e escritor; escorpiano corrompido, filho de oxossi convicto; pai de joão [sim, joão sabe ler], filho de eva (...) minha devoção por são francisco de assis é a tatuagem q hei de riscar (...) tenho medo das academias – a dos músculos e a das letras – pq tendem a atrofiar; detesto jaca e amo banana (...)”
Uma vez, quando perguntaram a Cazzo por quê um blog de entrevistas, ele respondeu: “Ao entrevistar me sinto mais perto da pessoa, preciso desse contato, sinto a pessoa mais verdadeira, mesmo que ali ela faça pose, ou até minta, sinto-a de verdade”. Pois agora é a vez dele fazer pose, mentir, ser verdadeiro.
Cazzo – Antes de saber como a literatura e a poesia entraram em sua vida, me diz uma coisa: como você imagina que seria a arte, em geral, se nós, seres humanos, jamais morrêssemos?
Cazzo – Porra, não dá nem pra especular como seria isso. Não é possível imaginar seja o que for fora desse tipo de existência que é essa a que estamos condicionados, a existência que temos conhecimento que é finita. Quando penso nisso, honestamente, não fico lamentando o fato de não sermos infinitos, como numa busca de um carpe diem que nunca chegue ao fim, sabe como é? Me angustia muito mais pensar que há-de chegar o dia em que passarei por uma não-existência, ou seja, o que estou sentindo agora e pretendo sentir por mais tempo vai se esgotar e vai chegar o momento em que não sentirei mais nada. Porra, isso é complicado, não consigo conceber a ideia do “não sentir”, entende? Imagine aí, como será não existir? Confesso que me deixa assustado pensar que, por exemplo, isso que está acontecendo agora, eu te respondo, você me pergunta, e tanto uma como outra são conclusões minhas e suas, sem falar nas outras tantas conclusões que, paralelamente, tiramos do que está ao nosso redor... porra... tudo isso que é reflexo do ato de pensar, intuir, sentir vai deixar de existir, assim, simplesmente deixar de existir. Acho que é por isso que muitas vezes me desfaço um bocado de uma tendência absolutamente radical voltada à razão e sofro lapsos de me apegar às coisas mais estúpidas possíveis, coisas como astros, tarô, essas quinquilharias... talvez uma forma desesperada e caricata mesmo de acreditar em algo além dessa existência.
Cazzo – Então, já que estamos nesse assunto, pra você, deus existe?
Cazzo – Veja bem, o fato de eu sofrer esses lapsos de vez em quando não quer dizer que automaticamente eu creia em deus. Mais do que isso até, crer em algo além do que nos é possível conhecer não significa que exista um ser superior e tal. Já me preocupei muito com a existência de deus, mas isso faz tempo. Hoje pouco me importo. Costumo dizer que acredito em deus dia sim, dia não.
Cazzo – Hoje você está acreditando?
Cazzo – Hoje?! Ainda não acabou o dia, só mais tarde pra te responder... hahahahaha... mas, perceba, no fundo, eu invejo os que crêem fervorosamente em algo, ando cansado de tentar desmerecer a fé alheia e indisposto de ficar tentando achar explicação lógica pra existência de deus. Eu me contento com essa maldita inveja. E mais: não me aborreço com os que ficam por aí pregando nos pontos de ônibus, naquela gritaria toda. Tenho por eles um profundo respeito porque, ao contrário de muita gente por aí, esses que vociferam a palavra de deus pelas ruas fazem isso porque acreditam. É absolutamente louvável.
Cazzo – E o diabo?
Cazzo – O que tem o diabo?
Cazzo – É dia sim, dia não que você crê nele também?
Cazzo – Rapaz, tá mais fácil eu acreditar em meu pai do que acreditar nessa balela.
Cazzo – Vamos partir pra literatura, pra poesia. Como aparecem em tua vida?
Cazzo – O momento exato, pra te responder de maneira absolutamente sincera, não dá pra precisar bem... mas, acho que foi importante o contato que tanto eu como minhas irmãs tivemos com os livros em casa. Porque era assim: morávamos num apartamento muito pequeno, mal iluminado, no subsolo de um prédio que ficava numa rua muito movimentada, prédio de frente pra rua que passava carro. Por isso, não podíamos brincar na rua. Nossa vivência era dentro de casa, com tv e rádio, principalmente. Mas a gente era naqueles idos dos 80 uma família tentando ascender à classe média, acredito. Tínhamos em casa características que depois percebi que eram bem peculiares: meu pai colecionava na estante garrafas e garrafas de whisky, vodka... e também na estante ficavam uma quantidade razoável de livros. Tinha livro sobre educação sexual, enciclopédias, livros de dieta natural, algo assim... então, além dos brinquedos, nossa distração naquele cubículo eram esses livros e os discos que colocávamos pra escutar na radiola. Creio que esse primeiro contato mesmo com livros que não eram bem apropriados às nossas idades foi importante.
Cazzo – Sem falar que nessa época vendia-se livro na porta das casas.
Cazzo – Sim, cara, exato. Isso mesmo. E minha mãe comprava também assim livros pra gente. Eu lembro que tinha livro que vinha com fita cassete, enciclopédia juvenil... porra, tudo isso acho que marcou profundamente nossa formação. As novelas também aguçavam em mim a coisa da criação. Fazíamos novela em casa, eu criava o nome da novela, os personagens e ainda dirigia minhas irmãs... hahahahaha...
Cazzo – Mas, por exemplo, livros pra crianças, coisas como Monteiro Lobato...
Cazzo – Não rolava, não. Os que minha mãe comprava, sem falar nos que a escola indicava pra lermos, eram livros com personagens da Disney. Monteiro Lobato fui ler já adulto. Conhecia apenas Sítio do Pica-Pau Amarelo na TV. Isso de não ter lido literatura pra crianças se dava também porque minha mãe não lia nada, cara. Não tinha tempo e nem mesmo o costume da leitura. Não me lembro de tê-la visto lendo livro. Meu pai menos ainda.
Cazzo – E gibi?
Cazzo – Sim, líamos muito. Turma da Mônica, principalmente. Um fato curioso: com dez pra onze anos, eu escrevi o que pra mim na época seria um romance. Chamava-se “A vingança de Marco Antônio”. Engraçado lembrar isso... pois bem, eu o escrevi a lápis, em oito a doze páginas de papel pautado. Tinha toda uma trama, uma influência forte das novelas. Uma de minhas irmãs desenhou a capa e tudo. Certa vez, depois de pronto, ainda criança, algum tempo depois, procurei por ele, não achei. Então perguntei a minha mãe se tinha visto uns papéis pautados todos juntos, na estante do quarto. Minha mãe simplesmente respondeu: “Ah, vi uns papéis largados lá, achei que não serviam, joguei tudo fora”. Porra, foi foda. Eu fiquei com uma raiva da porra. Mas por aí dá pra perceber que se dependesse assim de forma direta das pessoas em casa, meu pai e minha mãe, eu jamais tomaria gosto pelos livros, ou nesse caso, pelo ato de criar.
Cazzo – E quando e como se efetiva o gosto, então?
Cazzo – Ah, somente no fim da adolescência. Porque a partir dos meus doze anos, minha mãe permitiu que eu saísse, me deu a chave de casa. Então, a adolescência toda fora a descoberta da vida pra mim, conhecendo a rua, as pessoas, as mulheres e tal. Com dezesseis anos, na escola, numa prova de português, a professora colocou o poema “Poética”, do Manuel Bandeira, pra interpretarmos. Eu lembro que gostei muito do poema. Gostei daquela atitude rebelde. Mas só passei a ler mesmo e a escrever por culpa de uma desilusão amorosa.
Cazzo – Que original, hein?
Cazzo – Hahahahahaha... pois é, fazer o que? Mas foi assim que aconteceu. Uma namorada decidiu dar fim a nosso namoro, eu fiquei fudido, chorei cuma porra... e comecei a ler a Bíblia, tanto como um consolo quanto porque nessa idade, dezessete anos, eu sentia necessidade de afirmar a fé que vivia bambeando desde a infância. Aí nessa época comecei a ter o costume de ficar lendo durante a madrugada, comecei a estudar inglês sozinho, lia os livros didáticos de português, a Bíblia, como já disse... e nesse momento, minha mãe percebendo meu interesse pela leitura pegou uns livros na biblioteca do Cefet pra eu ler. Nesse período foi que comecei a ler poemas. Os de Drummond. Entendia um ou outro poema. Mas gostava. Achava que era importante, talvez. E aí sim, juntando a desilusão ainda acesa mais a influência dos primeiros poemas que li comecei a compor meus próprios versos.
Cazzo – E saía mostrando pros amigos ou preferia escondê-los?
Cazzo – Ah, eu mostrava sim. Eu tinha até um pseudônimo ou algo parecido. Era “Conjunto Vazio”. Assinado com o símbolo matemático mesmo. Resquício da tal desilusão... hahahaha.

Cazzo – E a literatura? Nessa época você chegou a esboçar algo?
Cazzo – Sim. Só que algum tempo depois, por conta de outra desilusão. Dessa vez com a religião, com deus, com Jesus. Nesse período eu visitei algumas igrejas, eu tava mesmo procurando uma fé, uma crença. Me desiludi quando, ao ler a história de Caim, achei deus um grande filho da puta porque simplesmente não aceita a oferenda de Caim, mas aceita a de Abel porque parecia melhor. Eu pensei: “Porra, e se pra Caim só tivesse sido possível oferecer aquilo?” Além disso, num dos Evangelhos fiquei fudido quando vi uma passagem em que o Cristo dizia que veio pra trazer a espada, não a paz. Eu pensei: “Que escroto!” A partir disso eu comecei a escrever uma estória chamada “Jesus, o Anticristo”, uma coisa ingênua, boba. Jesus voltava à Terra, reencarnado num sujeito que duvida de tudo a ponto de negar a si mesmo nas religiões que o pregam. Nem cheguei a completar essa estória. Ainda bem.
Cazzo – Mas pra idade que você tinha a ideia não era ruim.
Cazzo – Mas a linguagem era fraca, ruim mesmo.
Cazzo – E em que momento você se deu conta desse elemento na arte: a linguagem?
Cazzo – Rapaz, na prosa, o que me assustou positivamente foi quando li “Ensaio sobre a cegueira”, do Saramago. Cara, eu o li em três dias. E fiquei duas semanas ou mais em estado de choque, tanto por causa da estória em si quanto por culpa do jeito do Saramago escrever, a escrita direta, sem os sinais gráficos que eu estava acostumado, a ironia, o jeito de escrever como quem escreve um ensaio, porra, eu achei espetacular aquilo.
Cazzo – E na poesia como veio a impressão sobre a linguagem?
Cazzo – Nessa época também. E é interessante o que ocorre: eu tinha escritos em caderno mais de trezentos poemas, e saía mostrando pra deus e o mundo, todo me sentindo o poeta. Numa dessas, conheci Maíra, uma menina mais nova que eu, eu devia ter uns dezenove anos, eu fui logo dizendo que escrevia e tal, que tinha essa tonelada de poemas, ela ficou toda contente e me disse que seu pai era poeta também. Eu fiquei todo satisfeito, pensei que era a chance de conhecer um sujeito que nem eu etc. Então um dia Maíra me leva até a porta de sua casa e lá estava seu pai, o Zeca de Magalhães. Ela me apresentou dizendo: “Olha, meu pai, esse meu amigo escreve poema também, ele tem mais de trezentos poemas.” E Zeca, taxativo, seco, soltou: “Beleza. Se tiver pelo menos um que tenha poesia, tá ótimo. O resto pode jogar tudo fora.”
Cazzo – Hahahahahahahaaha... sacanagem... acabou com o poetinha...
Cazzo – Rapaz, aquilo foi uma porrada tão segura que não deu outra. Passei semanas em crise, olhava os poemas, lia-os, relia-os. Não demorou, comecei a jogar tudo fora. Sem pena. Zeca tinha toda razão.
Cazzo – Zeca então foi importante na sua formação, né?
Cazzo – Absolutamente. Eu não convivia com ele, não andava dentro da casa dele porque nunca me senti à vontade, era muito mais uma resistência minha mesmo. Mas ele, quando conversava comigo, era gentil demais, me emprestava livros, me mostrava o que estava escrevendo, aprendi muito com Zeca, bicho. Minha formação intelectual se divide a.Z. e d.Z., ou seja, antes e depois de Zeca de Magalhães.
Cazzo – Muito bom. Mas daí em diante você deixou de mostrar os poemas que passou a escrever?
Cazzo – Eu passei a escrever muito pouco, quase nada. E o que escrevia não mostrava. Só mostrei alguns anos depois porque achava que valia a pena. Mas ainda muito desconfiado.
Cazzo – Foi quando você publicou os livretos?
Cazzo – Isso mesmo. Mas antes mostrei os poemas pra Zeca. Eu já me sentia confiante. Ele aprovou, achou que valia a pena publicar os que escolhi.
Cazzo – Quais os títulos dos livretos? E como as pessoas receberam?
Cazzo – Deixa ver se eu lembro: “Tudo é válido”, “Só se for da sua mãe”, “Antipática Lira” e “Coca-cola é espumante”. Eu quase não os vendi, dava às pessoas. Deixava alguns nas portas das casas. Lembro que dois sujeitos que passaram a ser muito importantes pra mim tiveram reação positiva sobre os poemas.
Cazzo – Quem são esses?
Cazzo – Um é o Henrique Wagner. Ele era amigo do Zeca, venda livros com ele na porta da biblioteca dos Barris. Eu o conheci lá através do Zeca que mostrou meu livreto e o Henrique disse-me ter gostado. Outro foi o James Martins, que conheci através de Wendell, um amigo meu que dizia estar há tempos querendo nos apresentar. James também gostou dos poemas. Mas o fato de terem gostado dos poemas é o que menos pesa. Depois de Zeca de Magalhães, Henrique e James são até hoje minhas principais influências intelectuais. É bem curioso isso porque ambos têm orientações poéticas, digamos assim, distintas. Mas muito do que sou, muito do que percebo tem grande influência no modo de ver as artes e a vida desses dois sujeitos.
Cazzo – Qual a utilidade da arte? Serve pra que?
Cazzo – Eu contemplo e exijo a absoluta inutilidade da arte porque somente assim ela se aproxima da vida. Assim a gente tem o gosto de saborear, talvez, algum vestígio de sentido para a existência. O Leminski falava muito bem disso, ela chamava a poesia de “inutensílio”, é genial. Concordo plenamente com ele. Aprendi com ele.
Cazzo – Por falar de novo em poesia, Zeca, Henrique e James são influências que você chamou de influências intelectuais. Mas as influências poéticas mesmo quem são? Quem te influenciou no modo de fazer poemas, na linguagem?
Cazzo – Ah, sim, o Manuel Bandeira foi o primeiro de todos. Apesar de ter lido o Drummond primeiro, quase inteiro, quando peguei na biblioteca a obra completa do Bandeira fiquei tão apaixonado pelos poemas que só fui devolver o livro um ano depois. Foi a grande reviravolta na minha cabeça. Levei uma multa de quase dois anos sem poder pegar livros. Zeca me apresentou os poemas do Leminski e através dele cheguei nos poetas concretos que também me assustaram positivamente com aquele negócio de levar a poesia às últimas conseqüências. Teve o Oswald também, fundamental. João Cabral eu conheci e fiquei bestificado com o livro “Andando Sevilha”. Espetacular! Fernando Pessoa foi tão importante que por culpa dele assumi a feitura de heteronômios também.
Cazzo – Sim, é verdade. Você tem seus heteronômios. Foi assim que surgiu?
Cazzo – Não exatamente. Mas tem total influência. Primeiro, me impressionou como era possível escrever de modos tão diferentes. Mas, mais que isso, vendo Fernando Pessoa fazer isso eu me senti à vontade pra me esconder, digamos, nesses personagens. Não sei se é porque tenho tanto pra dizer e tão diversificado que não cabe tudo em mim. Ou talvez seja mesmo um modo de me camuflar. Pode ser isso, porque quando comecei a esboçar os primeiros poemas eu assinava “Conjunto Vazio”, e nem conhecia a obra do poeta português.
Cazzo – Quem são os heteronômios? Fala aí um pouco deles.
Cazzo – Tem o Leopoldo Madrugada que foi o primeiro que criei, exatamente pra me esconder nos poemas que compunha e já sofria de mim mesmo uma avassaladora autocrítica a ponto de não conseguir assumi-los com meu nome. Teria sido pseudônimo se não fosse a mania de inventar estória pra tudo. Aí inventei que ele era bissexual, não lembro bem, que tinha quarenta e tantos anos e acabou que ele se suicidou no Natal de 2007.
Cazzo – Os outros estão vivos?
Cazzo – Um está em estado terminal. É o Demerval Buarque. Marxista e cristão protestante. Deve ter quase sessenta anos de idade. Escreveu poemas que são releituras dos salmos. Além de crônicas publicadas num blog [www.demervalbuarque.blogspot.com]. Aí tem a Maria Pestano, professora de Letras, da Uneb. Tem quase sessenta anos, é uma homossexual reprimida, viveu um casamento frustrante, escreve as impressões de suas tristezas, angústias.
Cazzo – Todos já têm as obras prontas?
Cazzo – Não, não. Algumas coisas estão prontas, sim. Poucas. Maior parte ainda venho escrevendo.
Cazzo – E tem mais ainda?
Cazzo – Tem o Benedito Alves Pereira, que tem noventa e três anos, começou a escrever aos oitenta e um anos, escreve o que ele chama de prosas poéticas. Nasceu em Bom Jesus dos Passos, uma ilhota perto de Madre de Deus. E, por último, o Adroaldo Boaventura, que é heteronômio do Leopoldo Madrugada, nascido no Acre, escreveu um só poema e morreu aos vinte e um anos de idade. Leopoldo escreveu um ligeiro relato sobre a vida desse sujeito.
Cazzo – Como é que funciona tudo isso em tua cabeça? Eu digo assim: Há um tanto de alter-ego nisso tudo, né? Você já pensou sobre isso?
Cazzo – Claro. Eu já pensei nisso, sim. São características que eu tenho, algumas latentes, outras mais reclusas, mas que se manifestam em cada um desses personagens. Mas acho que o grande aspecto e que é absoluto aqui é o fato de eu me esconder, ou acreditar que estou me escondendo neles. E no fundo é por pura insegurança. Olhe bem, não é fácil admitir isso, mas creio que seja assim, é porque sou inseguro, minha formação, a infância mesmo decerto explode muito nessas criações. Assim como vem da infância certa desconfiança e medo quanto aos elementos divinos. Agora, o melhor disso tudo, mas que é fruto também dessa insegurança é o perfeccionismo que me imponho na confecção literária dos heteronômios. Toda essa produção que venho construindo sofre de um rigor extremo, não me permito escrever qualquer coisa, ao menos isso os personagens acabam tendo, essa forte presença de autocrítica, mas que, trazendo pra o chão, pra realidade, digamos, essa característica só existe por pura insegurança, é como se uma vez que eu faça algo muito bem feito e de muito bom gosto, por conta disso me sinto aceito pelas pessoas, posso me sentir seguro a partir da boa recepção de minhas produções.

Cazzo – Isso é o supra-sumo da auto-análise.
Cazzo – Um horror, né? Hahahahahahahaha...
Cazzo – Já para escrever sobre futebol não há heteronômio, é você mesmo, não é?
Cazzo – Sim, sou eu.
Cazzo – Fala um pouco de tua relação com o futebol.
Cazzo – Absolutamente visceral minha relação com o jogo de bola. Eu morava em apartamento, quando criança, minha aproximação com outras crianças se dava muito mais na escola, porém, lá eu não jogava bola. Raras as vezes que joguei coletivamente. Eu estudava num colégio particular (o Salesiano) e sentia dificuldade de me relacionar, estava quase sempre muito sozinho. E era sozinho que eu jogava bola, no meu mundo particular. Em casa, no corredor do prédio, eu estava sempre acompanhado dos jogadores que eu imaginava, fazia campeonatos disputadíssimos, com tabelas inteiras, os times tinham os nomes das bebidas que meu pai colecionava na estante da sala: Grant’s, Montilla, Balantines, White Horse, Chivas Regal...
Cazzo – Você jogava botão?
Cazzo – Sim. Muito. Sozinho, sempre. Rapaz, tudo, em termos de futebol, tinha de ser espetáculo. Quando jogava botão era do mesmo jeito, criava tabelas, com pontuação, artilharia, cartões. Em dia de jogo, enquanto jogavam, por exemplo, Vasco e Santos, então eu decidia que era em São Januário a partida, colocava todo o restante de times distribuído ao redor do campo, como que simulando as torcidas. Eu narrava o jogo, e rolando um gol, pegava o monte de botões do lado do time que acabara de alterar o placar e os agitava, simulando a comemoração.
Cazzo – Mas sempre sozinho? Jogando sozinho?
Cazzo – Sim. Às vezes, ia algum colega que morava perto lá pra casa, mas não tinha a mesma graça, eu ficava constrangido em criar todo esse espetáculo, então jogava por jogar.
Cazzo – E o futebol profissional você já acompanhava desde essa época?
Cazzo – Acompanhava. E era todo o aspecto lúdico, tanto da TV quanto do Rádio, que me fascinava. Tinha dia que eu ficava deitado na cama, olhando pra o teto, imaginando jogo ali e narrando, em voz alta, imitando narradores e locutores. Eu também criava os escudos dos times imaginários, aqueles que tinham nomes de bebidas. No caderno da escola, desenhava os uniformes completos de todos eles, pintava-os, porque as cores são elemento fundamental num time de futebol.
Cazzo – Mas por que essa fixação com futebol? Só por causa da televisão?
Cazzo – Talvez. Meu pai me levava à Fonte Nova, não muito, mas levava. Acho que isso também influenciou. Era engraçado, em casa, eu não podia xingar, minha mãe sempre atenta. Mas bastava eu estar no Estádio que eu me soltava, xingava todas as gerações do adversário, em BAVI, então, eu chegava rouco em casa...
Cazzo – E tua mãe sabia que a rouquidão era de tanto xingar?
Cazzo – Jamais. Nisso meu pai era muito leal.
Cazzo – Nesse período você tinha contato com alguma literatura próxima ao futebol?
Cazzo – Que nada. Nem sabia que se escrevia sobre futebol. Isso só ocorreu quando descobri Nelson Rodrigues. Primeiro li dele as crônicas de “A vida como ela é...”, e nessa de ir buscando o autor fiquei apaixonado pelas suas crônicas de futebol.
Cazzo – E aí começou também a escrever as suas...
Cazzo – Não, só fui escrever sobre futebol muito tempo depois. Nem tinha programado escrever nada. Veio de supetão. Aliás, veio como uma necessidade de escrever algo que fosse além da resenha esportiva. Fazendo buscas na internet, isso há 3 anos, não consegui achar nada que se aproximasse de crônica de futebol, tudo que se escrevia era mera reprodução dos jornais. Por isso foi que comecei a escrever.
Cazzo – Politicamente como andam seus pensamentos? De que lado você samba?
Cazzo – Rapaz, por vezes me considero um sujeito ingênuo politicamente. Não porque acredito em tudo que me dizem, mas por ter a impressão de que meu modo de ver as relações podem sim chegar a um resultado comum, ou seja, eu acabo sendo mais utópico do que o mais fervoroso dos comunistas, o mais doce dos anarquistas. Tenho um estado de espírito pra essas coisas que é de uma liberdade total.
Cazzo – Mas de que lado você samba mesmo?
Cazzo – Você quer saber se sou de direita ou de esquerda, né? Vamos lá. No caso específico do Brasil, o PT ter chegado ao mais alto cargo do governo federal foi de crucial importância para muita gente, e aqui me incluo, dissipar a dúvida que ainda pairava quanto aos reais posicionamentos dos partidos de esquerda. Desse modo, confesso que me sinto perdido às vezes, porque ainda peguei resquício desse ora verdadeiro, ora disfarçado posicionamento firme, que, hoje, nitidamente, só se vê firme, verdadeiro e absolutamente fora de contexto nos nanicos PCO, PSTU e Cia. Penso que avaliar e não me sentir identificado com nenhuma das opções presentes é também um posicionamento político. Seria alienação, como insistem muitos por aí, se eu nem me interessasse pelo assunto, se o desprezasse de forma grosseira.
Cazzo – Mas na prática mesmo isso acaba não causando alteração alguma.
Cazzo – Pensou-se, enquanto esquerda, que chegando ao poder essa tal alteração seria levada adiante. Não foi. Muito pior: partiu-se para um modo de governar assistencialista, transformou-se paliativo em programa de governo e ascendeu o país a um crescimento isoladamente de consumo, deixando o cidadão pra segundo plano, ostentando por meio de estatísticas um suposto avanço. Então, assim tem ficado claro que mesmo tomando um determinado posicionamento partidário em nada de efetivo se tem feito ou conquistado. Considero até que o posicionamento que escolhi não o escolhi por ter sido o único que me restou, mas por ser mais ético, pois com a esquerda no poder o que temos visto é um quadro muito mais desagradável: movimentos sociais, sindicatos, estudantes, todos engessados. Diferente do Getúlio que infiltrava seus homens nos sindicatos, o que se vê há quase dez anos é o fogo-amigo, companheiros que tomaram gosto pelo poder e, na base do jeitinho, conseguem tornar estática qualquer forma organizada que outrora aparentava uma independência de ação.Cazzo – Mas sua formação tem mais características de esquerda, é isso?
Cazzo – Sim, claro. Porque peguei o resquício de um tempo que era politicamente correto, ou até mesmo transgressor, ser de esquerda, ou ter simpatia pela esquerda. Durante certo período procurei aprofundar o conhecimento, com leituras, nunca participando de movimentos ou partidos, até porque já havia essa desconfiança nos mesmos. Como eu disse, precisávamos ver a esquerda no topo do poder pra ter a certeza do que já se desenhava há tempos. Eu ainda leio até hoje, menos pra falar a verdade, obras do Marx, que é um sujeito fascinante, que me deu uma base fundamental filosoficamente falando. Creio que nunca sofri muito dessa característica cegueira que atinge muito marxista por aí porque minhas leituras nunca se restringiram à orelha do livro ou à mera reprodução do que lia.
Cazzo – Você acredita na humanidade?
Cazzo – Já tentou suicídio alguma vez?
Cazzo – Nunca nem cogitei a ideia. A gente não pode perder de vista que tudo deve estar relacionado à nossa convivência. Mas falar um troço desse hoje, num mundo quase por inteiro preso à grana, os valores morais convertidos em marketing pessoal, puta merda, é foda. E pior, me perceber, porque não tem como fugir, participando disso, às vezes sendo agente multiplicador disso aí, principalmente através de um consumo muitas vezes sem utilidade alguma... porra, aí fica tudo meio perdido na cabeça. Uma complicação da porra.
Cazzo – Você ainda assim acredita na humanidade?
Cazzo – Não posso admitir outra possibilidade que não seja a de crer que algo ainda pode ser feito. Penso que isso também, ou melhor, isso passa muito por uma mudança dentro de si, hoje essa percepção além de ser mais nítida é melhor aceita já que com as desilusões partidárias que não nos permitiam ver nesse aspecto um ponto fundamental, nos é possível passar a trabalhar em cima, também, dessa mudança interna. E como disse, a vida é que tem de estar no primeiro plano aí...
Cazzo – Realmente, agimos como se não fosse a vida e suas implicações próprias...
Cazzo – É isso. Velho, a vida, em si, os mistérios que há nela, a certeza da morte e a incerteza do que possa existir depois da inexistência material acho que já deveriam ser motivo suficiente pra nos preocuparmos. Mas ainda assim, por causa desses mistérios é que a vida é boa de ser vivida. Mesmo diante de tanta inquietação e descontentamento, chego a crer e presencio algo muito maior do que a mera existência de acordar, comer, dormir em tudo que é lugar por onde passo. Constantemente meu pensamento passeia por essa crença – o que acaba sendo um consolo pra mim que tendo a um ceticismo absoluto. E fico intrigado quando percebo templos religiosos que acabam por serem lugares carentes dessa vida a que me refiro, até muito a limitam, e se não há vida, sejamos sensatos, logo, não há mistério.
Cazzo – Nesses momentos de ver a vida não te surge alguma imagem de um deus? Não te vem a ideia de que existe um deus?
Cazzo – Não. Quer dizer, às vezes a imagem de um sujeito velho, de barba branca, sentado num trono. Mas ela é tão caricata que, sem demora, desfaço-a. O que ocorre é que não compartilho da cegueira dos que crêem, meu olhar cético não me permite. Também não suporto a estupidez de ateus que descartam qualquer transcendência na vida, parecem viver sempre na auto-justificativa de negar deus sobre todas as coisas. E essa coisa de deus é algo tão forte, eu digo, assim... perceba, a ideia da existência de deus é tão forte que mesmo que um dia cheguemos a provar – tal qual provamos a lei da gravidade – que deus não existe, ainda assim ele continuará existindo. Então já não contesto o que existe desde sempre e continuará a existir.
Cazzo – Mas você tem uma devoção por São Francisco de Assis.
Cazzo – Herética, mas real. Não é devoção. É que o tomo como exemplo. Assim como Jesus, Francisco de Assis é o avesso da igreja. James uma vez me disse um negócio que é verdade, se Francisco de Assis chegasse hoje e mostrassem a ele a igreja que leva seu nome, aquela lá no Centro Histórico, toda banhada a ouro, certamente ele negaria, jamais entraria nela. E Francisco de Assis por sua relação com a pobreza, o desapego às coisas materiais, acaba sendo a referência e legitimação que tenho pra continuar lidando mal ou pior com o dinheiro.
Cazzo – Como assim?
Cazzo – Dia desses me perguntei se havia algo que eu pudesse perceber que sou mal resolvido. E não deu outra: dinheiro. Detesto dinheiro. Tenho um problema enorme com isso. Não tenho ímpeto de economizar, às vezes penso que é por impulso consumista, e talvez seja, mas muitas vezes o faço pra me livrar, se tenho de sobra, como já tive uma época, gastava-o, inventava o que fazer, só pra me livrar.
Cazzo – É sim. Terrível. Mas isso se dá porque não tive chance de ver uma peça que me tocasse. Eu creio que o teatro deve ser mesmo algo muito profundo. Sinto isso nas peças que li do Shakespeare, do Nelson Rodrigues... mas, nunca assisti a uma montagem que me deixasse em êxtase. Agora também tem o seguinte: nunca fui a muitas peças, talvez porque em Salvador, desde que me entendo por gente, há sempre uma tendência a se montar peças de humor, tudo meio pastelão. E as poucas coisas sérias, digamos assim, os dramas que vi foram de um mau gosto estarrecedor.
Cazzo – Então nunca passou pela sua cabeça escrever uma peça?

Cazzo – Eu tenho uma peça inacabada, venho escrevendo-a.
Cazzo – Bom você tocar nesse assunto. Da tal obra inacabada. Não sei se é o que lhe ocorre, mas muitos artistas, os das letras muitas vezes, tendem a ir escrevendo obras sem pressa, às vezes levam anos sem completá-las. Se acontece contigo, não bate uma angústia por pensar que se pode morrer e deixar as coisas aí inacabadas?
Cazzo – Olha, rola comigo isso de deixar coisas pela metade. Eu quero continuar contando com a sorte de viver mais tempo. Às vezes bate um desespero que me leva a sair escrevendo compulsivamente, mas, nem dura muito tempo porque a necessidade de ser rigoroso com o que estou produzindo sempre acaba me censurando. Então por isso me permito um tempo pra voltar a mexer naquela obra. Mas também confesso que quase de propósito não toco em muito do que produzo porque me iludo com uma convicção de que ainda tenho muitos anos pela frente, então é como se à medida que envelheço fico mais instigado a escrever. A iminência do fim de minha existência é um dispositivo absolutamente vital para escrever. As ideias das estórias, dos poemas vão ficando cada vez mais maduras com o passar do tempo. A paixão pela escrita, mesmo sem colocá-la em prática disciplinada, acaba se tornando inesgotável porque a alimento a todo instante na cabeça.
Cazzo – A disciplina não é seu forte.
Cazzo – Não é mesmo. Mas ultimamente tenho sido mais assíduo, de modo quase metódico, ao que está escrito e inacabado.
Cazzo – O amor existe ou a gente inventa?
Cazzo – Isso é da música do Cazuza. Eu sempre digo que eu não fui criado pela Xuxa. Cazuza e Gaiarsa me criaram.
Cazzo – Como é isso?
Cazzo – Não eram todos os desenhos da Xuxa que me interessavam. A Xuxa tampouco me agradava. Eu trocava de canal, muitas vezes, pra ver o José Ângelo Gaiarsa num programa matinal na Bandeirantes. Ele atendia as pessoas pelo telefone, sempre em pé, no estúdio, o fundo azul ou verde, e me deixava invocado ouvir aquele velho (ele já era velho na época), com boné na cabeça, falando sobre família, relacionamento daquele jeito dele. E o Cazuza me criou também porque eu ficava ouvindo o disco dele na radiola. As letras já me chamavam a atenção.
Cazzo – Então, Cazuza tinha razão? O amor a gente inventa?

Cazzo – Inventa, eu acho. Eu afirmo que a gente inventa muito mais pra negar essas verdadezinhas de que paixão é isso, amor é aquilo... paixão, amor... a gente inventa. E que bom que é assim. Ainda bem que o amor não é mero artefato numa prateleira que a gente vai lá, pega e usa. Não é um troço que está solto no ar. A gente inventa, mas do tanto que os inventamos, pelo menos pra mim, acabamos tomados pela invenção. A diferença é que quando a gente idealiza (que é mesmo isso aí de achar que é algo que está solto no ar) tendemos a não admitir que é tudo invenção, como se, por ser invenção, se tornasse, por isso, menos válido, menos intenso, como se não tivesse essência. E acho até que inventar as paixões, amores, seja lá o que for, é mesmo uma necessidade humana. Já pensou que porre a vida pura e simplesmente? Acordar, comer, cagar, mijar, dormir...
Cazzo – Eu vou citar aqui algumas frases suas e gostaria que você comentasse.
Cazzo – Diz aí.
Cazzo – “De vez em quando Jesus, quase sempre Nietzsche”.
Cazzo – Essa frase se refere a dois sujeitos que muito me fascinam e que, a grosso modo, parecem estar distantes, mas à medida que fui compreendendo tanto a figura de Jesus através dos evangelhos quanto a essência do Nietzsche, lendo-o, percebi que além de se complementarem eu os tenho como referencial. Por isso, tento levar minha vida desse modo, um pouco do que fora o Jesus, que não tem nada a ver com os cristãos, um pouco do que crê o Nietzsche.
Cazzo – “A feiura não me assusta, me comove”.
Cazzo – Ah, essa frase me veio numa situação específica. Foi uma descoberta que fiz mesmo. Certa vez conheci uma mulher que tinha os pés mais feios do mundo. Juro a você, eram horrorosos. E no momento em que vi esses pés, porra, me bateu uma comoção profunda. O primeiro impacto, óbvio, foi de horror mesmo, de susto, mas insisti em olhar e fiquei profundamente comovido com aquela feiura. Uma desgraça.

Cazzo – “Cansei dos poemas pq prefiro poesia”.
Cazzo – Isso foi num período em que eu estava cansado mesmo de escrever poemas. E também porque aprendi que poesia pode estar em outros lugares, situações, artes em geral.
Cazzo – Você ainda escreve poemas ou parou de vez?
Cazzo – Continuo escrevendo, sim. Às vezes passo um longo tempo sem esboçar nada, mas penso em poemas, versos soltos na cabeça durante quase todo o dia. É inevitável.
Cazzo – Essa pausa tem alguma relação com a ideia de inspiração?
Cazzo – Não. É que passo maior parte do tempo com as ideias sendo lapidadas na cabeça. Não sinto necessidade de ir logo ao papel, fico martelando, ajeitando os versos, arrumando as ideias, até porque também, como já falei, sou pouco disciplinado. Tenho resistência com esse negócio de inspiração. Mesmo o poema que veio de vez, como já me aconteceu, todo pronto, não dá pra apontar que ali houve inspiração. A ideia pode ter estado no inconsciente e chegou o momento em que se concretizou como poema.
Cazzo – Tem algum poema recente que você possa mostrar?
Cazzo – O último que escrevi e que acho que está pronto se chama “Da Paisagem”: a infinitude do mar/ é mero retrato/ nenhuma paisagem/ quando não há vestígio/ do mais sublime/ ou infame humano traço:/ reedição de navios piratas,/ legalizados navios mercantes,/ pequenas embarcações/ que deslizam imóveis no cais,/ plataformas que demarcam/ uma nova linha de horizonte.
Cazzo – Essa aqui a última frase: “Importante é o coração”.
Cazzo – Importante é o coração. Já diz tudo. É isso.