Há muitos anos eu desisti de salvar o mundo. Li, reli literatura subversiva mas não fui à luta porque sou mesmo de uma geração que nasceu desiludida. Carlos Pronzato não teve a mesma “sorte”.
Diretor teatral, escritor, cineasta independente, e, agora, blogger [www.lamestizaaudiovisual.blogspot.com], Carlos Pronzato acredita num mundo melhor. E faz, e trabalha, e luta, a seu modo, para que este tal mundo aconteça com uma câmera na mão porque são seus ideais que guiam a câmera: Papeleras GO HOME! - contra as fábricas de celulose-“; “O Panelaço, a rebelião argentina”; “Bolívia, a guerra do gás”; “Bolívia, a guerra da água”; “Jallalla Bolívia, Evo Presidente!”; “A Rebelião dos Pinguins – estudantes secundaristas contra o sistema no Chile”; “Carabina M2, uma arma americana, Che na Bolívia”; “A Veracel no Abril Vermelho do MST”; “Maio Baiano”; “A Revolta do Buzú”; “Além do Jejum, as verdades do Velho Chico”; “Até Oxalá vai à guerra”; “Buscando a Salvador Allende”; “Fernando Lugo, de bispo a presidente do Paraguai“.
Assim como Verger, Carybé e Arto Lindsay, Carlos Pronzato é desses estrangeiros que não estranham, pelo contrário, se sentem em casa quando dentro da Bahia. Mas cumpre também um relevante papel navegando pelas veias da América Latina, sempre atento a tudo o que pulsa no combativo continente. Sujeito persistente, Pronzato retrata, em absoluto, a vida real, concreta, sem maquiagens, sem vestígio algum de tentativas espúrias de manipular o que deve e o que não deve ser visto.
É óbvio que toda e qualquer manifestação artística é o reflexo de quem a pratica. Mas Pronzato, documentarizando, não nos impõe a realidade, decerto, contrapõe a vida ideal que as novelas nos fascinam – os problemas resolvidos, a inexistência de conflitos sociais latentes, a consagração do amor puro – porque de sua lente capta episódios sem recortá-los, transformando seus documentários em crônicas audiovisuais, numa estonteante produção, um jornalismo ambulante e emergente na busca de contar o fato, fazê-lo imortal.
A aparente raiva tão comum no semblante desses seres inconformados não se desenha num traço sequer no rosto leve do cineasta. Pasmem, Carlos Pronzato sorri.
Vejo nos seus filmes, na sua linguagem, quase um total descompromisso com a estética e um desgastante foco na realidade nua e crua. Estética e conteúdo, para você, são incompatíveis? (Maurício Moraes, 26 anos, Ator)
Considero o senhor um grande cronista do nosso tempo. Mas, ainda assim, existe algum projeto seu de fazer um filme atemporal, ou mesmo ficção? (Rita Maria Souza, 33 anos, Estudante de Direito)
Pronzato - Sim, até agora fiz apenas 3 filmes, curtas de ficção baseados em relatos da nossa História, “Canudos, numa longa curva” – filmado na própria Canudos ou Nova Canudos -, “Pierre Verger, chegar à Bahia” – filmado no Hotel Chile, onde ele ficou nos seus primeiros anos na Bahia e pode ser visto em youtube -, e “Caravela Tupiniquim” – filmado em Coroa Vermelha, sul do estado, sobre os 500 anos do Brasil e ainda não concluído. Como vê, todas estas ficções tem um pé na realidade. Estes trabalhos tiveram patrocínios parciais como a Uneb, a Dimas, e outras instituições. Mas por diversos motivos tiveram que ser finalizados através do mesmo tipo de esforço de produção militante aplicado aos documentários políticos de temas pontuais. Aqui seria bom fazer um aparte porque os públicos são diversos e nem todos acompanham a totalidade das obras realizadas – já que a Secretaria de Educação, em nenhuma gestão – mas nesta última acho isto um absurdo –, e como sempre solicitado por professores, não tem a coragem de distribuir parte da minha obra nas Escolas. Mas é bom dizer que filmes longas como “Carabina M2, uma arma americana. Che na Bolívia”, “Buscando a Allende”, e outros sobre temas históricos tiveram outras construções estéticas, apesar de ter as mesmas formas produtivas. Como já me falaram, para se adentrar neste tipo de solicitações de apoios mínimos para a construção destes filmes, tem de se fazer votos de pobreza primeiro, para não achar que as esmolas são esmolas, senão aportes para uma missão, quase franciscana, por certo, ou quixotesca (para isto deixei crescer um bigode que faria a inveja do cavaleiro da Mancha).
Mas, sim, existem projetos que tentarão aliar esta proposta política de temas brasileiros e latino-americanos que venho desenvolvendo há uns tempos com uma outra proposta munida de um envoltório ficcional, o que inclusive promoveria uma penetração mais profunda em âmbitos populares - e nem tão populares - de recepção, hipnotizados diariamente com a deformação deste formato que é a novela e infinidade de filmes comerciais de ocupação mental. Nós também temos direito a hipnotizar!..para esclarecer. rsrsrs.
Só que tem um, porém, isto precisa de recursos bem maiores, principalmente porque tem que “alimentar produtores/captadores de recursos“ que vivendo nesta parte do mundo, esquecida, espoliada, arrasada, pretendem ser produtores hollywoodianos de filmes do terceiro mundo. Não é minha intenção ficar preso nessas teias de um show business amador terceiro-mundista. Se é para se ganhar dinheiro mesmo com cinema vou para os states ou pro Rio que é mais perto. Assim, fica difícil achar “sócios” que topem propostas cinematográficas terceiro-mundistas. Mas a desistência não é palavra que conste no catálogo do documentarista político, e por isso estou a procura de novas formas de produção,- depois de ter praticamente inventado esta sorte de “mascatismo político/cultural” com a qual convivo fazendo “as crônicas do nosso tempo”, como alguém falou aqui - e hoje com a explosão tecnológica no mundo audiovisual acho que poderá ser possível ter a chance de poder elaborar com mais cuidado filmes, sem a intervenção ou o patrocínio quase exclusivo do Estado ou empresas capitalistas/imperialistas como a Nestlé, Petrobrás e similares. Até hoje, com os pequenos recursos públicos, retirados com muita paciência dos bolsos públicos de parlamentares, e de alguns Sindicatos e Organizações ainda não totalmente devoradas pelas parcerias PP e/ou pelo próprio sistema, mas principalmente gerados pela renda através da distribuição, comercialização dos DVDs com diversos segmentos do público em diversos países, que com este tipo de documentários debate a realidade e muitas vezes se mobiliza, não dá ainda para empreender esta aventura, mas se puder, em breve, será iniciada.
Pronzato, quais são as suas referências cinematográficas? E o que você acha realmente ruim em termos de estética cinematográfica? (Rui Figueira, 23 anos, Músico)
Agora, especificamente, quando ainda não tinha abordado o cinema como uma ferramenta política mais do que como um caminho apenas estético, minhas “leituras” tal vez sejam as clássicas de quase todos da minha geração: o neo-realismo italiano, a nouvelle vague, Buñuel, Fellini, Wajda, Tarkovski, Herzog, Fassbinder, também Pasolini, os irmãos Taviani e já na minha seara do cinema de denúncia, os latino-americanos (Birri, Sanjinés, Gleyzer, Glauber). Minha formação é completamente anárquica, o que me permitiu beber em muitas fontes com um sentido amplo do mundo, para depois decantar o necessário criando minha própria ordem de “anartista”.
Agora, ruim para mim é a estética que migra da TV para o cinema, ritmos, enquadres, planos e tempos incompatíveis, narrativas infinitas e óbvias próprias da novela com a que estamos acostumados a ver principalmente no cinema comercial brasileiro - e muitas vezes no chamado “de autor”-, o mais norte-americano do mundo. Um cinema milionário, e estou me referindo ao brasileiro em relação com outros do seu próprio contexto latino americano, que não aporta absolutamente nada em termos de conteúdo e forma, mais ainda pela responsabilidade que um pais/continente como este deveria ter na sua capacidade de influencia (em termos de escola e ideologia e não apenas comercial) dos vizinhos e de enfrentamento ao monopólio dos mercados do cinema dos EUA, com seu 85% do mercado mundial. Mas a possibilidade de uma estética latino-americana ainda tem esperança de sobrevivência por aqui, se vier acompanhada de um sentido político de ter consciência do contexto no qual se cria e se vive, da nossa identidade complexa e diversa, muito diferente do mundo anglo-saxão que as indústrias locais pretendem copiar e impor por aqui para um consumo asséptico e fácil. Não que isto não aconteça nos outros países da A.L. mas se o Brasil – e em se falando em indústrias tamanho sim é documento - assumisse a vanguarda da transformação alguma vez, a história seria outra...mas o gigante continua adormecido e o pais do futuro, nas palavras do escritor austríaco exilado no Brasil de Vargas, Stefan Zweig, ainda não disse a que veio.
Seus filmes possuem um padrão de edições sem arrumação, quase não há fotografia e pouco jogo de câmeras. Isso é uma linguagem própria ou é falta de recursos? (Ana Miranda Costa, 32 anos, Artista Plástica)
Isto não invalida que eu, por exemplo, voltando as linguagens estéticas, adore o cinema noir dos 40, por exemplo, e o latino-americano feito em seguida – el “índio” Fernández e Maria Félix, Leopoldo Torre Nilsson para me deliciar com a fotografia preto e branco e a iluminação de estúdio daquele cinema que fala da imaginação e de propostas e inquietações pessoais, que também são válidas. No momento, eu falo da realidade, para transformá-la. A falta de recursos acho que reafirma uma proposta política de fazer cinema, acho que é natural, condiz com o que faço e com os temas que retrato. Com maiores recursos tal vez mude algumas coisa – mais fitas para filmar e até com duas baterias, (rsrsrs), um carro da produção para se deslocar, créditos no celular para agilizar a produção, maior tempo e tranqüilidade para organizar a edição, conseguir farto material de arquivo, organizar a divulgação com maior eficiência, maior tempo para pesquisa, e muitos etceteras - o que não pode é mudar o essencial que é a cumplicidade com os de baixo, os que não tem voz, e que o governo, qualquer governo fica achando que dando o arsenal digital completo às parcelas mais sofridas da população, vai resolver o problema de acesso a cidadania. Veja se não que vida útil tem os materiais audiovisuais que o governo e a maioria das ONGS fazem para “acalmar os futuros rebeldes” e a vida útil dos materiais militantes feitos sem o intuito de atender quaisquer programas assistencialistas do governo que for. Portanto, com recursos você pode fazer belas merdas como toda a propaganda política dos governos que nos enchem a paciência regularmente, distribuir editais “a mancheia” para que as empresas privadas continuem lucrando sem aportar um tostão do seus bolsos – apenas transformam impostos em cultura de barganha – e não aportar absolutamente nada para a construção de um autentico olhar latino-americano, filho legítimo da estética da violência e da fome como quiseram muitos ilustres fundadores da dignidade nossa como Che, impulsor de tudo que tivesse a ver com “comunica- ação” quando ministro em Cuba, e ele mesmo escritor/cronista e fotógrafo.
Tenho impressão de que seus filmes sofrem influencia de Glauber Rocha. É isso mesmo? O que você pensa do Cinema Novo? (Cássia Rivas, 30 anos, Socióloga)
Pronzato - Antes de Glauber, até porque só estreitei “laços” com a obra deste visionário intelectual e militante a serviço de uma proposta coletiva, só a partir do momento de vir morar no Brasil, acho que as influencias tem que ser procuradas noutros cinemas contemporâneos, ou até prévios a Glauber, como o de Fernando Birri,( cineasta argentino, propulsor de uma cinema com sabor e índole latino-americana) com seus docu-reportagens na pioneira Escola de Santa Fé (Argentina), ou o mundo altiplânico do boliviano Jorge Sanjinés, e tantos outros como Raymundo Gleyzer, cineasta desaparecido argentino (cujo filme principal – Los Traidores – emblema no mundo do cinema latino-americano de combate teve meu pai – Víctor Pronzato ou Proncet - como ator principal, autor do conto no qual se baseia o filme e o seu roteirista). E o Cinema Novo também se inscreve nesse relato latino-americano dos 50, 60, um rechaço as imposições da indústria cinematográfica ianque e as suas macaquices locais, em plena expansão por aqui nos anos JK até as barreiras nacionalistas que o Jango levantou no inicio dos 60. Claro que estamos falando de influencias um tanto involuntárias, inconscientes, mas acho que de Glauber se tivesse que atribuir ao que faço uma influencia dele, seria a sua postura insistente de uma proposta “pedagógica” de se olhar e se sentir diferente e resistente ao produto de consumo em que a indústria queria -e quer- transformar um ser pensante observador num ser passivo, apto para o consumo indiscriminado de merda visual globalizada e merda local fruto da estrangeira. Por isso, acho Glauber paladino nesse embate. Che, um operário intelectual com uma arma, seu último recurso e seu último combate. Glauber, um operário intelectual com uma câmera, seu último recurso e seu último combate. Uma idéia na cabeça, uma câmera (arma) na mão. É a nossa solução, o remédio para um diagnóstico claro de dominação perene e que segue sendo preterida até pelos governos de esquerda, e que “atuam no mesmo filme da direita” e que quando assumem o poder não tem a mínima coragem de promover um cinema diferente, como o de aqueles anos iniciais do nosso despertar cinematográfico construtor de identidades. Então, ambos permanecem vivos nas suas obras e nas de muitos, espalhadas pelo mundo. Isso é o que vale, isso é o que resta.
Sou membro da UJS-Bahia. Assisti o filme "Revolta do Buzú" e percebi que você mostra tudo o que aconteceu. Ainda assim, ficou uma má impressão sobre o movimento estudantil. Qual sua opinião sobre o movimento estudantil hoje? (Rennan Vieira, 19 anos, Estudante)
Pronzato - Rubén Blades, compositor panamenho, autor entre muitas outras salsas, de Pedro Navaja, diz nesta última canção, um clássico tal vez não conhecido por estas bandas devido ao protecionismo brasileiro praticado com seus vizinhos, inclusive no âmbito da cultura: “...la vida te dá sorpresas, sorpresas te la vida, há, há....”. Pois é, o documentário ao qual você faz referência é de 2003, portanto, em todos esses anos é a primeira vez que escuto (leio) isto, o que é uma verdadeira sorpresa: que ficou uma má impressão sobre o movimento estudantil.
Se por um lado mostrar tudo o que aconteceu, como você coloca, é um elogio descabido já que e impossível abordar uma cidade inteira em levante com uma simples camerinha e o agradeço, a seqüência da sua opinião realmente me surpreende. Se a má impressão ficou para aqueles que desde o governo municipal e/ou estadual da época ou desde o empresariado do transporte local e da população omissa que não acompanhou o levante, olhavam como as suas previsões de cooptação do movimento não eram concretizadas, ai, tudo bem, que fique a má impressão, disso se trata, quanto pior a impressão para o mundo das instituições e do lucro, mas respeitabilidade para o movimento popular e para nós, “documentaristas do lado de cá”. Agora, se essa opinião vem de um estudante que hoje com 19 anos, e na época calculo que com 13/14, a idade da força rebelde maior da revolta, e que ainda por cima imagino teve e deve ter acesso na sua Organização ao farto material que circula na internet, na Academia, em escritos independentes e de segmentos políticos os mais diversos sobre o tema neste pais, além dos testemunhos orais que desde aquela época ainda comentam a maior mobilização vista por aqui desde o quebra-quebra dos ônibus do ano 81, ai a coisa passa a preocupar. Se você que é da UJS/BA, não consegue enxergar por motivos que imagino dependentes de instancias políticas superiores ligadas ao partido que organiza essa força estudantil, e não querem admitir que a rebeldia estudantil tomou rumos imprevistos ocasionando o que eles jamais conseguiriam desde a planificação dos seus gabinetes, não é problema do que mostra o documentário, é problema da interpretação dos fatos. Isto não retira o fato de que todo material audiovisual que pretenda documentar fatos políticos passa por recortes desde a escolha dos entrevistados até a montagem final e que por trás da câmera pode ter alguém que não seja um mero repórter (com todo respeito a aqueles que tentam manter sua independência trabalhando para a hegemonia do poder midiático, se é que tentam) senão um investigador solitário a serviço do coletivo, munido de uma câmera e que além disso milita na causa da solidariedade ao conjunto do protesto e não a um grupo, a coisa muda de figura. Eu pergunto, se o partido e a UJS sabe da força e da penetração que um documentário como esse teve e tem no estado e no país - e até no exterior, estando no Chile trabalhando no filme “A Rebelião dos Pingüins” sobre os protestos estudantis secundaristas que PARALISARAM O PAÍS por uma semana, os estudantes tinham noticias dos baianos- porque não sair do “reduto” dos conhecidos de sempre e construir um audiovisual que dê conta do que, ao seu entender, realmente aconteceu para deixar tão ma impressão do movimento estudantil.
O movimento estudantil não é só a UJS, - da qual conheço e comparto com muitos dos seus integrantes observações diárias sobre a realidade local e discuto com eles estas mesmas questões abertamente e em mesas de debates, já que da dialética se nutrem as discussões e a ação- o movimento estudantil também se organiza noutros partidos e ainda em espaços apartidários, que também tem o direito de lutar da maneira organizativa que achem mais conveniente, apesar de não terem todos recursos organizativos similares, (pode até ser um único individuo organizado que lute sozinho pelo que ache justo sem querer entrar no terreno da organização política partidária burguesa e que a sua luta convoque outro e mais outro e assim sucessivamente). Ou acaso aquela revolta teve a sua força arrasadora na massa organizada ou nos indivíduos conscientes (também teve inconscientes que até cobravam pedágio nos cortes, é claro!) que não eram simples gorduras de uma massa informe? Em resumo, e sobre a sua última pergunta, se uma parte do movimento estudantil vai continuar no jogo de interesses apenas eleitorais, em total apatia a uma formação política séria e ampla, que socialize outras dinâmicas políticas que a contemporaneidade nos mostra – Chiapas, o mundo indígena, etc - e que não seja apenas a de vestir a camiseta do Che - sendo cabo de força de instancias políticas superiores em nível local e nacional e até em certas conjunturas do governo federal, sem se entregar de corpo e alma nas lutas maiores de maneira autêntica como na Revolta do Buzú, não nutro esperança nenhuma nesse tipo de movimento.
Criticas como esta as venho fazendo desde aquela época – alias, são os próprios acontecimentos que o filme retrata que falam mais alto- e acho que não abalaram totalmente minhas relações com esse segmento organizado da juventude, apesar de que na última Bienal de Cultura realizada em Salvador alguma mão diretiva me deixou de fora na mostra de cinema e/ou palestra como já estava combinado há tempos. Ossos do oficio....
Pronzato, li uns poemas seus e achei-os maçantes. Você consegue ver relação entre poesia e política? (Caio Fontes, 21 anos, Estudante)
Pronzato - Dentro dessa relação escrevi alguns livros como: “Poesias contra o Império”, “Bolívia Poema Rebelde”, “Canudos não se rendeu”, “Che, um poema guerrilheiro”, “1968, Che, teu nome é uma imensa barricada”, “Poemas sem Terra” entre outros livros de poesia “políticos”. Sei que não é fácil uma absoluta concordância sobre isto, mas sobre se eu vejo relação entre poesia e política, sim, vejo, não consigo ver uma outra coisa entre ambas criações humanas, e tentar tento, não tenha dúvidas que se tempo tivesse para não me preocupar com as questões atuais que dizem respeito ao nosso cotidiano político local e mundial, com as quais trabalho diariamente, o que não daria para escrever sobre o mar que tenho aqui na frente como já escrevi sobre ele numa época – “Lenta Geografia” - , ou sobre as mulheres que amei, que deixei ou me deixaram (mais disto último), ou sobre questões mais profundas e introspectivas ainda que apenas dizem respeito ao interior de sim mesmo, espaço único e cósmico. Mas, a poesia só tem sentido coletivo quando se integra na luta como uma arma a mais e apenas reproduz o que a poesia, a verdadeira poesia do enfrentamento do ser humano contra seu opressor dita ao poeta. Eu não tivesse entrado na política sem as armas da poesia, não poderia me habituar a um escritório político, detesto essa expressão, ainda bem que não tem um escritório poético, já imaginou? aí é o fim do mundo.
Guardo com todo carinho a frase de uma poetisa (ou poeta) mapuche - nação indígena extremamente combativa do sul do Chile, e tema já filmado de um próximo documentário a ser montado – quando, lá mesmo no Chile, no final da exibição do meu filme sobre o Che na Bolívia, com lágrimas nos olhos me disse que gostou do filme porque tem poesia. Foi o maior cumprimento que recebi até hoje como cineasta documentarista: a poesia do documentário, quando a atinge, não é mais do que a poesia da vida, essa interrogação constante sobre a qual nos debruçamos com nossos “armamentos profissionais”. Porem, eu credito essa poesia que ela viu no documentário a poética e revolucionária vida do Che – ele mesmo poeta – além do fato das intervenções próprias que a gente articula para construir a narrativa, ou para contar o conto, como diria Garcia Márquez. Poetas com Neruda, Brecht, Agostinho Neto, só para citar os que tiveram maiores relações com o mundo da política além das suas poesias combativas, mostraram que a verdadeira poesia não pode se omitir das lutas, ao contrário, só pode subsistir se é a partir delas. Até a denominada poesia concreta dos irmãos Campos é uma postura política, mas isto já é um outro papo que pode nos levar a uma mesa de bar, e aqui, pelo que entendo, está se falando de lutas concretas, sem jogos de palavras.
Pronzato - A minha carteira de identidade diz que nasci em Buenos Aires num inverno do ano da revolução cubana. Diz também que meu pai era italiano e minha mãe argentina descendente italianos e galegos. Portanto, isso, mestiço de culturas importadas nascido em território indígena que alguma vez não teve nem portenhos e nem tango. Mas tem outro documento, o passaporte, essa livreta absurda que pretende remarcar apenas nossas diferenças e que alguma vez teremos que abolir, para começar pelo menos simbolicamente a construir nossa identidade maior- em vez de fronteiras, pontes que nos unam -, que diz que andei durante vários anos conhecendo outros territórios ao sul do rio Bravo ou rio Grande – aquele que nos separa, além da cerca que os ianques construíram, dos EUA -, sem motocicleta pero com diários de viagem, desde o México até o Chile e desde o Panamá até a Martinica, com uma escapadinha de navio para Europa e que desembarquei em 89 neste porto indo-afro-português e hoje brasileiro e baiano. Aqui estudei teatro (me formei em 93 na UFBA e fiz pós na UFRGS em 2002), que já era minha atividade principal na época, dirigindo muitas peças até que percebi que o teatro não teria a penetração que tem o audiovisual para estes temas que trabalho atualmente, e retomei no final dos 90, o percurso iniciado no cinema em 81 quando iniciei na prática no cinema comercial na Argentina na função de meritório de direção (espécie de estagiário aqui) e que continuei no México em alguns filmes feitos por exilados latino-americanos até o périplo citado mais acima em que me instalei por aqui até hoje. Então, praticamente, a relação com o cinema começa ali, nos sets de filmagem – ainda guardo minha carteira de SICA (Sindicato da Indústria Cinematográfica Argentina)-,
mas a verdadeira relação começou em casa com meu pai músico de cinema, teatro e TV, roteirista e tal e minha mãe artista plástica, fotógrafa, que me passaram todo seu arsenal artístico e vendo muitos filmes desde criança no programa “Hollywood em castelhano” na TV preto e branco, quase todo o cinema argentino e mexicano em programas específicos e indo no cinema – e no teatro - com eles. Não tive “opção”. Um detalhe, se isto pudera interessar a alguém ainda hoje, em tempos de internet: no final dos 70 ia no cinema principalmente assistir retrospectivas das grandes correntes cinematográficas munido de cadernetas onde fazia observações dos filmes em todos os seus aspectos, depois continuei essa prática assistindo filmes na TV: posicionamento de câmaras, angulações, tempo das cenas, efeitos, cortes, e até as fichas técnicas. De alguma maneira ia me inserir nesse mundo, ainda não sabia como, e uma das possibilidades que foi aparecendo, tomando espaço, “disputando hegemonia” com outras, foi esta, com este perfil político atual que foi surgindo tal vez naquela viagem latino-americana de iniciação, e ficou aguardando sua oportunidade de “me tomar por assalto”. Mas que ia continuar a tradição familiar, já sabia e me preparei para isso.
A imagem do glorioso Che hoje está um tanto desgastada e até mesmo na moda. O seu curta-metragem e o longa sobre o Che são muito bons. Você tem essa mesma percepção? Como você vê a imagem de Che hoje em dia? (Sávio Silva, 28 anos, Estudante de História)
É preciso estudar o Che, colocar seus livros, suas obras, a experiência de sua vida nas escolas secundaristas deste país, deste continente.

Pronzato - Relações eu tenho – inclusive de amizade -, relações de trabalho, esporádicas, quase que exclusivamente nalgum momento de tensão social ou mobilização. Ou quando vou nos espaços parlamentares procurar os apoios para fins político/sociais que me correspondem como cidadão que paga impostos até no palito de fósforo que compro e aporto involuntariamente para as instituições legislativas. Seguindo com as relações, as vezes fica difícil construir amizades nos espaços partidários quando há diferenças de visão política, de organização coletiva dentro ou fora dos partidos, já que essa inserção vai ser a mola mestra das relações noutros âmbitos. Para nós, cineastas documentaristas que não participamos de coletivos organizados em partidos, ou em Ongs ou em organizações de outro tipo, - tem outros que sim participam e constroem seus materiais por dentro destes movimentos específicos mas geralmente com circulação restringida a esses espaços- e que transitamos pela diversidade do movimento social em toda sua amplidão não nos resta outra alternativa do que ter um senso crítico bem treinado e aguçado e por tanto, no meu caso, não vejo possibilidades de me organizar verticalmente à maneira partidária, sem ter a possibilidade da minha opinião
veiculada no cume da pirâmide, de onde partem as decisões, a maioria das vezes sem consulta às bases ou com mínima consulta, ainda que esta seja “popular”. Acompanho sim pela infinidade de boletins o desenrolar das discussões e propostas partidárias, sobre os diversos temas que me preocupam. Acho que os partidos e seus apêndices legislativos e organizativos da sociedade civil são espaços de acumulação teórica que deveriam cumprir funções de interesse público, além dos períodos eleitorais, quando entram em ebulição propagandística ativando a rede completa de acumulação capitalista do pais através das empresas de marketing e propaganda e toda a cadeia comercial gráfica, TV, etc. Não vejo futuro nenhum no partido na construção política nos próximos anos, nos novos cenários de acumulação de poder das massas famintas e desempregadas e até da sempre omissa classe média, o fiel da balança na hora do limite do protesto, na hora da repressão governamental colocando os panos frios nas rebeliões em conluio com seus representantes políticos e o seu guardiães fardados. Os projetos de liberação nacional, se ainda assim podem ser chamados no continente, não creio que passem mais pelo partido, com todo respeito ao camarada Lenin e a sua época. Novos espaços políticos e não novos clubes de amigos, como parecem ser hoje a maioria os partidos, atuando em função apenas de alianças de amizades pessoais, deverão ser construídos. O mundo mudou, mas não pela eleição de Obama. O mundo jamais vai mudar através de eleições milionárias. O mundo mudou porque novos movimentos sócias entraram em cena, explosivos, irreverentes, fora da programação eleitoral proposta pelos governos, e condizentes com um mundo cansado de um sistema que a cada longos 4, 5 ou 6 anos renova suas bancadas para continuar espoliando o planeta, oferecendo leis e decretos para utilização à vontade dos recursos naturais. O mundo mudou porque o precipício ficou a milímetros da próxima ação predatória das transnacionais, braço da penetração imperialista do mundo desenvolvido e os seus lacaios adormecendo os cidadãos nas rédeas da organização política tradicional.
E é com esses movimentos sociais em construção de um mundo em mutação, e que ainda terão que se desprender dos vícios autoritários que ainda reproduzem esquemas partidários no seu interior, que o mundo pode retomar o rumo de dignidade que alguma vez foi tentado na A.L. pela última das opções: a das armas revolucionárias.
E sobre os laranjas, acho normal sua existência e produto do âmbito parlamentar, onde prima o nepotismo, os conluios entre legendas partidárias, os favores para aceder a cargos, a superpopulação da máquina e dos gabinetes, o dispêndio fabuloso e diário em papel, gasolina, comida, tecnologia, altíssimos e indecentes salários, (para mim a atividade parlamentar – num Parlamento diferente e popular, é claro -deveria ser ad honorem mantendo apenas os salários das suas profissões de origem com uma equipe mínima de um ou dois assessores, igualmente ad honorem) pouquíssima produção intelectual, militante e/ou de transformação política, fora dos interesses da manutenção do poder, e muito tempo laboral jogado na lata do lixo. Pessoas de alta qualidade humana participando desse mundo que “pensam modificar por dentro”. Enquanto pensam isso, a máquina os devora com e comodidades, destruindo o que ainda resta neles de espírito combativo. Vejam–se as queixas que o Che fazia no seu Gabinete quando ministro aos seus colegas e sobre seu trabalho voluntário aos domingos nos canaviais.
Mas tudo isto é o normal e vox populi, não estou descobrindo a pólvora, apenas a estou utilizando para lembrar deste absurdo com o qual convivemos. Para isso existe, para conter o protesto social, o Parlamento burguês.


































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